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Tema: A pandemia não acabou: impactos e desafios da era Covid-19

Organizador: Movimento TJCC e CEE/Fiocruz

O Movimento Todos Juntos Contra o Câncer e o Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz aplicaram uma pesquisa para comparar o impacto da Covid-19 nos anos de 2020 e 2021. 

Apesar do aumento da cobertura vacinal, a pandemia não acabou e os centros de tratamento também não retomaram suas atividades plenamente. E os resultados deste estudo comprovam isso. 

Foram ouvidas um total de 924 pessoas, entre pacientes e profissionais de saúde. 

Um a cada quatro pacientes ainda sofre o impacto da pandemia. 88% deles realizam o tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Os atendimentos médicos à distância tiveram um importante aumento por conta da COVID-19, em cerca de 79%. Embora o cancelamento de consultas não esteja mais acontecendo em 2021, a falta de medicamentos essenciais ainda preocupa bastante. 31% dos pacientes reclamam não receber corretamente suas medicações”, fala Tiago Cepas, sanitarista e especialista em gestão de saúde. 

Os profissionais de saúde ouvidos no estudo também atuam majoritariamente no SUS. De acordo com eles, ainda há um número expressivo de cancelamentos na realização de radioterapia e a falta de medicamentos tem trazido complicações para a cirurgia oncológica. 

Para José Gomes Temporão, médico sanitarista e pesquisador da Fiocruz, a comunicação também é um ponto a ser discutido. 

“Às vezes, não é nem a ausência de iniciativa, mas sim de estratégia. A falha na comunicação e nos processos faz não chegar ao paciente o que ele está esperando. O impacto da pandemia foi brutal e é uma questão que atinge todas as esferas do sistema de saúde. Nós estamos diante de uma situação muito grave e de emergência e que exige do Ministério da Saúde uma atitude diferente da que está acontecendo hoje. Nós precisaríamos de uma série de medidas de políticas públicas que pudessem fazer frente a esse problema todo. Temos que nos organizar com base nas evidências e levar formalmente essa situação ao ministro da saúde, por meio de uma audiência. Temos que divulgar essas informações para os secretários de saúde, para que nos demandem medidas concretas nos campos de financiamento, apoio e afins. É preciso intervir”, ressaltou. 

O atraso nos diagnósticos preocupa médicos de todo o mundo. Estima-se que 55 mil pacientes irão morrer a mais no Reino Unido, quando comparado aos demais anos, por conta da dificuldade na realização de exames. 

“O que estamos percebendo é o aumento do número de casos avançados. Por exemplo, houve um aumento significativo de cirurgias não só pelo SUS, mas também na saúde suplementar. Isso com certeza vai impactar na mortalidade, afinal se há um número de casos avançados, há também impacto nas mortes. Isso trará uma epidemia de casos avançados e piores resultados que os outros anos e esses resultados não serão vistos agora. Eles virão em 2022 e 2023. Por isso, nós temos que resgatar esses pacientes que continuam sem ser diagnosticados”, fomentou o Dr. Alexandre Ferreira Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO). 

A queda da procura pelos pacientes, e por possíveis pacientes, aos serviços de saúde também foi tema de discussão nessa mesa do 8º Congresso Todos Juntos Contra o Câncer. 

“Nós chegamos a matricular 700 pacientes por mês e durante o pico da pandemia tivemos apenas 250. Foi preciso criar um esforço gigante, como um comitê de crise emergencial, ações diversas para propiciar o atendimento com a maior segurança possível, testagem em todos os pacientes que davam entrada na instituição. O impacto da não vinda gerou preocupação dos pacientes terem tratamentos retardados e também queda em nosso faturamento. Então além de enfrentarmos essa questão assistencial, também enfrentamos uma questão econômica”, comentou o Dr. Helio Fonseca Jr., superintendente geral do Hospital de Câncer de Pernambuco. 

Isso sem contar que o câncer não é uma prioridade para os governos, e sim a COVID-19. 

“Falta de medicamento, dificuldade de acesso a tratamento são coisas que a gente já tinha na Oncologia e isso se potencializou e vai se potencializar ainda mais a partir de 2022 e 2023. E agora a Oncologia não é uma prioridade. Como representante da sociedade civil, precisamos levar esse debate o quanto antes. Precisamos ter ao nosso lado quem tem o poder e a caneta na mão para fazer a diferença. E como Movimento TJCC continuaremos monitorando”, finalizou Nina Melo, coordenadora de pesquisa da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale). 

Tema: Como podemos aprimorar e fomentar a utilização dos dados?

Organizador: Movimento TJCC e Observatório de Oncologia

 

Para ampliar o acesso aos tratamentos e melhorar os desfechos clínicos, é fundamental monitorar a qualidade dos serviços oferecidos. Unificar os prontuários da saúde pública e privada pode ser uma importante solução, mas ainda é um desafio. 

Segundo Nina Melo, coordenadora de pesquisa da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), dados e informação são coisas diferentes. Eles se distinguem em campo de estudo, fonte e utilização.

“No Observatório de Oncologia transformamos dados em informação. Levantamos diversos dados, decodificamos e fazemos estudos a partir deles. Atualmente, temos mais de 70 estudos publicados. Mas, existe uma série de limitações. Eu destacaria a questão da integração destes. Entendo esta como uma barreira importante, não só de gestão, mas também na esfera municipal, estadual, federal. No Observatório, fazemos análises individuais em cada um dos sistemas, já que atualmente não conseguimos fazer um link entre eles. Existem projetos de leis que visam integrar o sistema eletrônico do sistema público, com o sistema privado”, comentou.

Outra limitação apontada foi o viés de faturamento. 

“O SAI e o SIH são sistemas desenvolvidos com a finalidade de operacionalizar o pagamento das internações e demais procedimentos realizados nos estabelecimentos do SUS. Desta forma, esses sistemas não foram concebidos para fornecer informações para tomada de decisão, seja na área de gestão, epidemiológica. Além disso, há o possível risco de distorção das informações, provocada pela lógica de obtenção de maior faturamento. A qualidade dos dados também é uma limitação. A subnotificação, por exemplo, ainda é um problema que persiste”, enfatizou Nina. 

Os dados podem ser fomentados pelo desejo do novo. Para isso, é preciso querer fazer perguntas diferentes, novas, e que possam ser respondidas por este artifício. 

“A pandemia certamente foi um evento atípico e espero que não aconteça algo parecido nos próximos 100 anos. A perspectiva de crescimento na área tecnológica, estimada para 10 anos, aconteceu em poucos meses, como a telemedicina, que é uma nova maneira de coletar informações e, claro, de acesso à saúde. Em termos de dados, aconteceram eventos ruins, como o represamento de atendimentos no SUS, mas eu diria que o maior aprendizado é que conseguimos evoluir, apesar das barreiras, que muitas vezes são mais burocráticas, do que reais”, sinalizou Faissal Hajar, acadêmico de Medicina. 

No caso do SUS, o uso de análises avançadas e ciência de dados ajuda a entender a dinâmica deste sistema. É o que diz Guilherme Julian, diretor de Economia e Valor da Saúde da Iqvia.

“Ainda que nossa visão seja míope a respeito de nossas bases de dados, é melhor tê-las, do que estarmos totalmente no escuro. Do ponto de vista do sistema público, a RNDS já visa ter uma potencial harmonização das bases de dados entre o SUS e o sistema privado. Potencialmente, no futuro, será uma possibilidade ter um grupo de pacientes epidemiologicamente interligados nas bases de informações públicas. Hoje, na perspectiva privada, a ANS abriu muitos dados, como de faturamento, tipos de compra, mas ainda assim ter a possibilidade de ter um identificador único de pacientes ajudaria muito. Conseguiríamos fazer uma análise mais ampla. E claro, sempre pensando na segurança dos dados dos pacientes. Sou otimista e acredito nas melhorias”, comentou.  

E descobrir as respostas para perguntas que ainda não tinha sido feitas, foi o que motivou Marcelo Miranda, tech leader na DASA, a criar um novo projeto. 

“Nossa motivação foi perceber as respostas sem precisão no momento de uma consulta e a ausência de registros comparativos. Afinal, como pacientes, nem sempre nos lembramos ou sabemos se temos alergia a algum medicamento, por exemplo. Nossa proposta foi criar um serviço, o NAV, para tomada de decisão assistencial inteligente, com visualização personalizada de informações e também com uma identificação precoce de riscos individuais e populacionais. Dentre os resultados, estão o empoderamento ao médico e também para a administração hospitalar, que saberá quais recursos estão sendo mais utilizados e também terá uma visão completa sobre a saúde dos pacientes. Já são mais de 10.400 profissionais que usam a ferramenta. Atualmente, ela está direcionada somente para os médicos”, finalizou.

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