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Câncer: responsabilidade e ação de todos para transformarmos a realidade no país

“Se eu olhar quantos pacientes foram tratados em 2020 e comparar com 2019, não parece uma queda tão grande. Mas, é importante lembrar que, anualmente, sempre há um crescimento, então é preciso entender isso e a velocidade da desaceleração para identificar qual o gap”, André Ballalai, Associate Principal do grupo global de Preços e Acesso ao Mercado da IQVIA, abriu as apresentações. O estudo apresentado quantifica e aponta, por meio de dados, quanto os diagnósticos e tratamentos oncológicos foram impactados pela pandemia da COVID-19.

Além da desaceleração, houve ainda procedimentos que tiveram uma real diminuição. Por exemplo, o número de cirurgias nos estados, especialmente na região sul e sudeste, teve uma queda de até 25%.

“Parece uma economia, mas é uma subutilização do recurso financeiro, porque acontecerá um rebote no pós-pandemia e porque haverá uma piora dos pacientes. Consequentemente, há um aumento do custo médio dos pacientes e isso vai ter um repique muito forte nos próximos anos”, disse André.

Para o pesquisador, para solucionar essa situação, será necessário aumentar o investimento em Oncologia a partir do ano que vem, aumento da capacidade de diagnóstico e tratamento. Especialmente porque, antes da pandemia, já existiam filas muito longas, então, com a retomada, o sistema estará ainda mais pressionado, implicando em uma maior espera. Por esses motivos, é necessária uma ação rápida para mitigar a demanda e diagnosticar os pacientes que ficaram represados.

Em seguida, o Igor Morbeck, médico oncologista no Hospital Sírio Libanês e integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), reforçou que desde o início da disseminação do coronavírus pelo mundo, inúmeros pacientes deixaram de fazer seu tratamento e consultas de acompanhamento. Como consequência, “esperamos que, para os próximos anos, lamentavelmente, com o diagnóstico tardio, teremos uma piora nos índices de mortalidade. (…) A gente percebe que o número de cirurgias teve uma diminuição muito grande, e também percebemos que a retomada está muito lenta”, afirmou Igor.

Ele julgou que são necessárias políticas públicas para mitigar os efeitos ao longo dos próximos anos e complementou ressaltando que é preciso trabalhar para melhorar o acesso dos pacientes ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O terceiro palestrante, Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista, ex-diretor presidente da ANVISA e ex-Secretário Municipal de Saúde de São Paulo, orientou que todos devem olhar para o câncer de forma mais humana para enxergar o que, de fato, está acontecendo. Isso porque, ao mesmo tempo que a pandemia escancarou alguns problemas, mascarou outras questões relevantes.

“Fantástico que nós tenhamos dados, eles são muito importantes para enxergarmos o que está acontecendo. Mas, esses dados são parciais, porque faltou um pedaço que é o que nós já deveríamos estar fazendo em relação ao diagnóstico. Normalmente, nós diagnosticamos menos câncer que outros países cujas tendências de idade das populações são semelhantes à nossa. A outra questão que se instaurou com a pandemia é que muita gente deixou de ser diagnosticada e tratada, mas isso já acontecia antes, pois, por exemplo, a quantidade de máquinas de radioterapias é baixa e insuficiente”, alertou.

O Dr. Vecina também considerou que são necessárias políticas para solucionar a situação, mas “se política for aquilo que temos lá no congresso, estamos fritos. Política é uma vontade de fazer uma coisa estruturada de fazer algo necessário e quem decide isso é o povo”, declarou. Ele completou afirmando ser fundamental exigir dos políticos o desenho e implementação de uma política pública que resolva, ou melhore, a questão do câncer. Inclusive que ofereça os melhores medicamentos para todos os pacientes, não somente aqueles que têm plano de saúde.

“Se esse presidente fez o que fez com a COVID-19, que era uma coisa simples, que era só comprar vacina, imagina o que fará com o câncer. (…) Está na hora de nos perdermos o medo de pegar o coronavírus, vacinar a população e tratar os pacientes oncológicos”, concluiu.

Felipe Roitberg, médico oncologista – UICC Leadership Programe, fez uma avaliação de como o período da pandemia afetou os serviços da Oncologia no mundo como um todo.

“Já temos 1 ano e meio de pandemia, e há um questionamento de até quando ela dura, assim como seus impactos. É uma pandemia ou é uma sindemia?”, indagou o médico.

Ele expôs que em mais de 19% dos 150 países analisados, mais de 49% dos serviços em câncer foram afetados. E em mais de 9% dos países, 32% dos tratamentos sofreram alterações.

“No câncer, a COVID-19 teve um importante impacto e cerca de 90% dos países sofreram problemas na área da saúde. (…) Tivemos cerca de 3 milhões de óbitos a mais, excluindo a COVID-19, em 2020. Dentre elas, estão doenças crônicas, como o câncer. Então, quando reduzimos o atendimento, há um abandono, o impacto é grande. E esse dado demonstra isso”, ressaltou.

O Dr. Roitberg finalizou sua apresentação falando sobre a importância de levar a mensagem que a vacina é segura e vacinar toda a população – não só no Brasil, como no mundo todo, uma vez que de todas as vacinas aplicadas, menos de 2% foram aplicadas na África.

Ana Cristina Pinho, médica e diretora geral do Instituto Nacional de Câncer – INCA, discursou a respeito do controle do câncer a partir de uma abordagem ampla e da experiência do trabalho em rede para o controle dos fatores de risco para a doença.

“O câncer como uma doença crônica prevenível e para qual temos que oferecer cuidado integral, temos que organizar redes de atenção organizadas e descentralizadas e promover educação permanente, temos que promover a cooperação intersetorial”, disse.

Em relação à pandemia, ela pontuou que o conhecimento científico se construiu em velocidade recorde, mas por conta da necessidade do distanciamento social, houve  um retraimento espontâneo nos serviços oncológicos.

“O país enfrenta hoje as consequências da pandemia, nós da área da saúde sabemos que as autoridades precisaram fazer escolhas de investimento. Estamos enfrentando todos os desafios novos que ela trouxe, sem abandonar os antigos. (…) Nossa responsabilidade de auxiliar o Ministério da Saúde, junto de diversas outras organizações da sociedade, para melhorar a realidade do país será cada vez mais forte, para alcançarmos o objetivo de fazer o controle”, explicou.

Catherine Moura, CEO da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (ABRALE), Médica sanitarista e Mestre em Saúde Pública, apontou ressaltou um ponto que acredita ser crucial: a responsabilidade compartilhada.

“Além de ser uma questão pública, é um problema de todos nós porque a solução não é simples. Quando a gente trata de saúde nem sempre as soluções são fáceis de manejar. (…) Para tratar de problemas complexos e saúde populacional, nós estamos falando de implementar políticas públicas em um processo de co-participação. Precisamos abrir espaço público e dar voz para o paciente, para que ele possa ser ouvido”, falou.

Segundo a CEO, o papel do paciente é não somente trazer suas necessidades individuais, mas também problemas com os quais ele e outros pacientes se deparam durante a sua jornada.

“Essa é a voz que precisa ser ouvida, vem dela necessidades importantes. (…) Todo esforço coletivo é necessário para o enfrentamento de uma questão complexa como essa e é um direito social participar desses espaços de contribuição. É fundamental que a gente dê voz para o usuário do sistema público de saúde”, reforçou.

A abertura foi conduzida pelo Rodrigo Bocardi, Jornalista e apresentador do Bom Dia São Paulo da Rede Globo.

“O cenário não é nada bom e todo mundo já sabia que ia acontecer. A luta, que já era muito grande, agora, tem que se intensificar ainda mais e os dados trazem a conscientização desse problema. Só não enxerga quem não quer”, comentou o apresentador.

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