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Novas perspectivas para o tratamento de câncer de mama precoce Organizador: Lilly

Neste painel foi discutido sobre o diagnóstico do câncer de mama precoce e as atuais perspectivas para o tratamento da doença nesse estadiamento. Também foi abordada a participação de pacientes com esse tipo de neoplasia em estudos clínicos que avaliam a eficácia de novas drogas.

Andre Mattar, médico mastologista e Diretor do núcleo de oncologia clínica do hospital Pérola Byington, abriu a roda de conversa explicando que 90% dos cânceres de mama não dão sintomas, mas que, quando o tumor está maior, pode gerar diversas manifestações. Por isso é importante identificar a presença da doença enquanto ela ainda não causa sintomas, principalmente para possibilitar uma maior chance de cura.

Ele detalhou os tratamentos existentes para alguns tipos de câncer de mama mais comuns e ressaltou que, atualmente, o mais complexo é o triplo negativo.

“Ainda é a nossa pedra no sapato. Ele é o mais agressivo, mas muitas pesquisas estão vindo, para conseguirmos a cura dele. E hoje, temos protocolos de pesquisa de imunoterapia. ”

O Dr. Mattar ainda esclareceu que os ensaios clínicos são focados em áreas nas quais o tratamento ainda não funciona 100% ou causa efeitos colaterais significativos e contou quais são e como funcionam as etapas desse processo.

“Quando falamos em pesquisa clínica, a pessoa pode sentir que é cobaia. Mas não é bem assim. Afinal, a cobaia não tem condição de escolher se quer ou não participar da pesquisa. Na pesquisa, a regulação é bastante rígida e a pessoa vai receber um termo com todas as informações e vai assinar, para poder participar, somente se quiser”, disse.

 

Miriam Alves de Souza Amorim, química e paciente de câncer de mama, relatou como descobriu sua doença e como se tornou voluntária em um ensaio clínico.

“Estava indo embora de ônibus para casa e acabei batendo meu seio após uma freada brusca. Fiz um ultrassom e apareceu um nódulo de 2 cm. A batida foi minha salvação. Mas quando fiz a cirurgia, descobriram que o nódulo tinha 10 cm, e foi quando precisei fazer a mastectomia completa. (…) Antes de fazer a cirurgia, recebi uma ligação do pessoal da pesquisa clínica do Hospital Pérola Byington, me explicando sobre ela. Para mim foi uma luz no final do túnel, pois entendi que teria acesso a uma nova opção.”

Ela também contou como era seu dia-a-dia como participante do estudo e como essa experiência foi uma oportunidade muito importante. Miriam falou que considera ter sido muito tranquilo passar pela pesquisa.

Maria Vanuzia Costa, administradora de empresa e paciente de câncer de mama, também narrou como foi seu diagnóstico e participação na mesma pesquisa clínica.

“Percebi um aumento no meu seio, do lado direito e também sentia um desconforto, quando levantava o braço. Minha ginecologista achou que era algo relacionado à menstruação, mas após realizar novos exames, foi descoberto o câncer de mama. Tive que fazer a mastectomia, além de quimio e radioterapia. Também comecei a tomar um medicamento, quando entrei em uma pesquisa no Pérola Byington.”

Para ela, participar da pesquisa significava mais uma chance para a cura.

“O contrato é bastante esclarecedor, perguntei várias coisas, que me foram respondidas. Tive um amparo bem grande e me senti muito segura. (…) Sempre procurei fazer tudo o que os médicos indicavam e continuei minha vida. Ia ao mercado, fazia minhas atividades físicas, levava meus filhos à escola. Enquanto eu estivesse viva, eu ia viver”, relembrou.

O painel foi mediado por Clarisia Moniz Ramos, empreendedora social, Presidente da UNACCAM – União e Apoio no Combate ao Câncer de Mama.

Tema: Labirintos da Saúde: caminhos do paciente oncológico

Organizador: Movimento TJCC

A jornada do paciente com câncer precisa ser uma prioridade dos serviços de saúde. Para tal, uma equipe de saúde especializada pode e deve orientar essa pessoa e seus familiares em todos os aspectos relacionados ao câncer.

Daniele Castelo Branco Pires, Terapeuta Ocupacional pela Universidade de Fortaleza e pós graduada em Oncologia e Gerontologia, falou sobre a navegação de pacientes, apresentando o navegador como um agente de transformação no tratamento do câncer de mama.

“A navegação pode e deve estar presente em todos os passos da jornada, desde o primeiro atendimento, passando pelo diagnóstico, tratamento e sobrevida. O que muda é qual o profissional mais adequado para fazer a navegação em cada um desses serviços”, pontuou.

Ela relatou que a experiência no seu local de trabalho demonstrou que contar com dois navegadores experientes em oncologia fez toda a diferença. Daniele acrescentou que é fundamental o navegador, além de conhecer muito bem a doença que ele está navegando, conhecer muito bem o sistema pelo qual está navegando.

Sandra Gioia, médica Cirurgiã Oncológica pelo INCA e mastologista do Grupo de Cirurgiões de Mama, apresentou os impactos que a navegação de pacientes com câncer de mama teve na Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro.

“O Rio de Janeiro cumpria a Lei dos 60 dias em 10%, levando em média 158 dias para iniciar o tratamento”, Sandra falou. Com a implementação, em 2019, do projeto de navegação do paciente, a taxa de cumprimento da Lei subiu para 27% em 2018 e para 85% em 2020, com média de tempo para início do tratamento de 38 dias.

Em seguida, Sônia Dias Lanza Freire, mestre em Saúde Pública, especialista em gestão em Saúde e coordenadora do Grupo Estadual de Doenças Crônicas do Estado de São Paulo, explicou como elaborar uma rede de cuidados para ajudar os pacientes a acessarem os serviços de saúde.

“Quando a gente fala de São Paulo, pensamos em um estado grande e robusto e com bastante serviços de saúde. Porém, ele tem uma divisão própria: a divisão de saúde, uma divisão administrativa e uma de assistência. O que nós reparamos é que, dependendo da região em que estamos, o acesso é maior e mais facilitado, então ela não é igualitária”, detalhou.

Ela disse que acredita que para ajudar o paciente a ter um acesso facilitado é preciso contar com a regulação como principal ferramenta de acesso.

“O próprio financiamento da rede oncológica, hoje em dia, o quantitativo de recurso não é suficiente para a Oncologia. Daí a importância da regulação para monitorar a meta dos planos e com o foco em diminuir o tempo de espera entre o diagnóstico e o início do tratamento. ”

Para finalizar as apresentações, Paola Torres, médica onco-hematologista, escritora e presidente do Instituto Roda da Vida, falou a respeito das dificuldades e êxitos em ajudar os pacientes oncológicos em busca da sua saúde.

“Nós temos tido muitos êxitos nesses labirintos. Nós começamos com um sistema que não era o Sistema Único de Saúde (SUS), era muito incipiente, com muita dificuldade de acesso a qualquer medicamento mais avançado. Apesar de ainda estarmos longe do ideal, já caminhamos”, considerou.

Ela falou que julga ser necessário colocar o paciente em foco e que, ao pensar em uma pessoa com câncer, é preciso pensar em si mesmo. Isso porque, de acordo com estudos, o panorama é que o câncer ver suplantar cada vez mais as causas mortis.

“Acho que o grande desafio é oferecer para os profissionais e pacientes uma integralidade do cuidado entendendo esse caminho e tornando ele claro, mostrando para o paciente cada etapa. O paciente precisa ter clareza de como é o caminho e em que etapa ele está. Eu acho que nós precisamos nos preparar para oferecer mais ao paciente (…) mas não é só o paciente que precisa de orientação, é preciso o sistema se entender. Há diversos médicos que estão inseridos no sistema, mas não entendem como ele funciona e como orientar o paciente para o passo seguinte (…) para que ele consiga ser atendido o mais rápido”, ressaltou.

O debate foi moderado pela Catherine Moura, CEO da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (ABRALE), médica sanitarista e mestre em Saúde Pública.

Tema: Survivorship em Oncologia

Organizador: Oncoclínicas

 

Survivorship é o acompanhamento dos pacientes oncológicos visando um cuidado integral e abrangente. É um conceito amplo que trata não somente a doença, mas o indivíduo como um todo.

Luciana Landeiro, oncologista clínica, explicou que o indivíduo é considerado um sobrevivente ao câncer desde o diagnóstico, até o fim da sua vida e todo esse período é tido chamado de “Survivorship”

“Esse termo não visa colocar um rótulo, mas sim apenas alcançar essa população. Até por isso usamos a palavra em inglês, ‘survivorship’, que não dá uma tradução literal para o português”, ela comentou.

Para Luciana, toda pessoa em survivorship exige da equipe multiprofissional um olhar a longo prazo por conta dos diversos obstáculos que podem surgir ao longo do tratamento. Isso porque, as necessidades variam de acordo com os indivíduos e o acompanhamento adequado pode detectar problemas que podem ser prevenidos, curados ou controlados.

Rafael Brant, médico oncologista, ressaltou que 60% dos adultos sobrevivem mais de 5 anos após o câncer e ⅓ deles terão efeitos colaterais, como privação de sono.

Survivorship é uma fase negligenciada na trajetória do tratamento do câncer, pois falta educação na área profissional, por exemplo. Vários aspectos da vida do paciente, no diagnóstico e até mesmo após o tratamento, ficam um pouco perdidos”, pontuou.

Ele complementou falando sobre a importância do cuidado ao paciente oncológico após o tratamento. O motivo para isso acontecer é que essa pessoa está mais predisposta a desenvolver novas comorbidades ao longo da vida, quando comparado a alguém que não teve câncer.

“E mesmo assim, os cuidados não são oferecidos aos pacientes na maior parte das vezes. Muitos pacientes acabam desenvolvendo diferentes doenças, sem nem saber que poderiam ser evitadas. (…) A coordenação do cuidado nada mais é do que identificar as questões do meu paciente e compartilhar com demais colegas da equipe multi, além de conversar com o próprio paciente, para que ele possa tomar as melhores decisões para o seu tratamento”, disse Rafael.

Flávia Sorice, psicóloga e coordenadora da equipe multidisciplinar da Oncoclínicas – MG, explicou que o papel da Psicologia em survivorship é construir pontes e fortalecer vínculos.

“Precisamos auxiliar nas mudanças, que são necessárias, mas não tão fáceis. O paciente precisa ter consciência que aquela mudança é importante para ele. E ele precisa entender que não está sozinho nessa caminhada” falou.

Flávia também ressaltou que, apesar de se saber que o momento do diagnóstico é angustiante, outra situação muito impactante é quando o tratamento acaba e o paciente pode seguir seu caminho.

“Parece estranho, mas terminar o tratamento é um novo desconhecido. Por isso, vem uma mistura de emoções. O paciente pode se sentir desprotegido, afinal, enquanto estava tratando, sentia-se seguro. E é a comunicação que irá ajudar a clarear este caminho e tornar esta novidade algo familiar, para que o paciente possa ficar mais tranquilo”, afirmou.

Hyndiara Frota, atuante em Medicina Integrativa na Oncoclínicas, iniciou sua fala esclarecendo que a Medicina Integrativa tem como foco a pessoa como um todo, tendo como base a ciência, o uso de terapêuticas e abordagens complementares, como acupuntura e ioga.

“O paciente utiliza essa medicina para aumentar as chances de cura, amenizar os efeitos colaterais, controlar sua própria vida, e se sentir melhor. (…) Ela tem um papel fundamental desde o momento do diagnóstico, até o pós-câncer. Avaliamos o todo – os efeitos colaterais, quais os medicamentos usados, contexto social, impacto no tratamento, no grupo de suporte, estilo de vida, quais suas crenças espirituais, seus propósitos de vida.  Isso tudo visando, sempre, o melhor desfecho clínico. Temos que saber o que é importante para o paciente”, ela salientou.

O painel foi moderado pela Clarissa Matias, Oncologista clínica da Oncoclínicas Bahia, Presidente da SBOC, Chair Comitê Internacional da ASCO.

Tema: A Trajetória do Paciente Oncológico: Da Descoberta à Recuperação

 Organizador: Hospital Santa Catarina

Ter uma experiência positiva é um fator importante para os pacientes oncológicos e seus familiares. Nesse contexto, a equipe do Centro de Oncologia do Hospital Santa Catarina – Paulista contou quais os recursos são usados para proporcionar um tratamento humanizado, apoiado na ciência e nas tecnologias disponíveis contra o câncer.

Silmara Christianini, médica Oncologista e paciente de câncer de mama, narrou como foi a sua experiência como paciente oncológica.

“Ninguém acha que vai ter um câncer. E eu, como oncologista, achava menos ainda. Foi quando eu apalpei um nódulo na minha mama. E com a minha experiência na área, eu já imaginei que pudesse ser um câncer. E foi aí que procurei um médico amigo meu. Ele me confortou muito, explicou que poderia ser benigno, porque neste momento ainda não tinha o resultado da biópsia. Mas quando temos a confirmação, nós perdemos o chão e paralisamos. ”

Ela também compartilhou que, mesmo sendo oncologista, teve muitas dúvidas e angústias no momento do diagnóstico e que foi fundamental saber que ela estava sendo bem cuidada e não era só mais um número.

Antônio Cavaleiro, médico atuante em clínica médica e oncologia clínica, contou, brevemente, a história do Hospital Santa Catarina e como funciona o trabalho da equipe médica por trás de um único paciente.

“O que é importante considerar é que o avanço científico nos faz avaliar esse papel do cowboy, o faz tudo. Hoje, é preciso entender a importância do time. Cada um tem seu papel essencial na recuperação de um único paciente. (…) O trabalho em equipe é desafiador, e exige criatividade. A complexidade da nova ciência exige boas equipes. E a melhor ciência deve ser oferecida para a recuperação completa do paciente. E quando a recuperação não for possível, é preciso conversar com o paciente de maneira sincera e compassiva”, afirmou.

Complementando a fala sobre o papel da equipe, Dayana Yabase, enfermeira especialista em Oncologia e Coordenadora de Enfermagem do Centro de Oncologia do hospital, discursou sobre o papel do enfermeiro como um coordenador de toda a assistência.

“Ele é o profissional que vai passar mais tempo com o paciente, e ele pode perceber os medos, os problemas enfrentados, até mesmo financeiros. A equipe de enfermagem está alinhada com toda a equipe multiprofissional”, esclareceu.

Dayana também explicou sobre o que é e como trabalha o(a) enfermeiro(a) navegador, que presta assistência desde o primeiro contato com o paciente e vai guiá-lo e ajudá-lo a organizar sua “agenda” de exames, tratamentos e consultas.

“Com a implantação deste projeto, tivemos ganhos entre o tempo do diagnóstico e tratamento, e hoje conseguimos um prazo de cinco dias – antes era em torno de 25 dias. Antes, eles ficavam perdidos no sistema e, agora, têm uma experiência melhor neste momento tão delicado que estão vivendo”, informou.

Juliana Gomes Pereira, médica e especialista em Psiquiatria, palestrou a respeito do impacto mental durante o câncer e as questões psicológicas comuns nesse período.

“Existem estudos que falam em 60% de transtorno mental durante o câncer. Um estudo publicado na Nature, com dados de prontuário de pacientes antes e depois da pandemia, mostrou que 24% deles tiveram transtornos depressivos e 17% de ansiedade”, apontou.

Juliana relatou que a Psiquiatria pode auxiliar os pacientes que já apresentavam distúrbios mentais antes do diagnóstico  e aqueles que desenvolvem após de diversas maneiras.

“É preciso focar no dia de hoje e pensar em ter qualidade de vida um dia de cada vez. E não pensar se ficará curado em meses, ou como estará daqui a dez anos. Cada dia de uma vez”, orientou.

O painel foi moderado pela Adriana Penna, médica em Hematologia e Hemoterapia e doutora em Hematologia, que também comentou sobre a integralidade dos serviços, focados no paciente, do Hospital Santa Catarina.

“O laço entre o paciente e os profissionais de saúde é muito importante para os melhores resultados no tratamento. ”

Tema: Vacinação além do COVID: Vacinação para pacientes oncológicos

Organizador: Pfizer

A vacinação é um assunto de extrema importância para os pacientes oncológicos e envolve diversos imunizantes, não só contra a COVID-19. A importância dessa proteção é tão grande que existem locais estratégicos para oferecer as vacinas para todos que têm doenças crônicas ou são imunossuprimidos, os CRIE – Centros de referência para Imunobiológicos Especiais.

“Fizemos uma pesquisa com duas mil pessoas e descobrimos que 76% delas nunca tinham ouvido falar sobre esse serviço e apenas 15% relataram que o médico falou sobre vacinas durante sua consulta”, expôs Cristiane Santos, Diretora de Comunicação e Assuntos Corporativos da Pfizer e moderadora do painel.

Angélica Rodrigues, Pós-doutorado em Oncologia Global na Harvard University e professora e pesquisadora da UFMG, salientou a necessidade do oncologista manter as vacinas do paciente em dia, seguindo o calendário vacinal, assim como recomenda o Ministério da Saúde.

“É nos primeiros anos de vida que recebemos as principais vacinas, porque a resposta imunológica na infância é algo incrível. Por isso, assim como no adulto, a criança também precisa estar com as vacinas em dia. As vacinas com vírus atenuados precisam ser evitadas no tratamento, já as com o vírus ‘inativado’, podem ser aplicadas”, ela afirmou.

Apesar de caber à equipe profissional verificar, no momento do diagnóstico, os cartões de vacina do paciente, Angélica aconselhou que os pacientes levem ao seu médico e equipe multidisciplinar a questão da vacinação.

Lorena Diniz, Especialização em Alergia e Imunologia na USP-SP, Coordendora do Departamento Nacional de Imunização da ASBAI, falou sobre quais vacinas os pacientes oncológicos podem tomar, onde encontrá-las e alguns cuidados especiais em relação a determinados imunizantes.

“Algumas vacinas estão disponíveis nos postos de saúde, como a tríplice viral e a vacina antitétano. Basta chegar no posto, com o cartão de vacina, e aplicar. Quando se perde o cartão de vacina, o profissional que o atender irá pesquisar e orientar se ele realmente precisa do reforço ou não. Mas é importante não perder e nem esquecer de levar nesse momento”, orientou.

Em relação à vacina contra a COVID-19, Lorena ressaltou que todos os imunizantes autorizados atualmente no Brasil estão liberados para pacientes oncológicos, pois são seguros. A intercambialidade, entretanto, ainda está sendo estudada, principalmente, com o uso no dia-a-dia e os resultados já apresentados indicam boa segurança e eficácia.

A especialista em imunologia também passou algumas orientações em relação à vacinação de pessoas que moram com os pacientes.

“Se tem algum paciente adulto em tratamento que está em casa e tem também uma criança em casa, é importante que essa criança não receba a vacina de poliomielite de vírus ativado, e sim a de vírus inativado. Isso para que o paciente não venha a correr riscos. Por outro lado, existem outras vacinas que o familiar precisa tomar, para evitar que a doença chegue até o paciente”, indicou.

Heitor Campos, Paciente de leucemia mieloide aguda de tipo M3. Influenciador digital, ativista, gestor de saúde há oito anos pela rede pública, fez um alerta para todos os pacientes, baseado em sua própria experiência.

“Quando iniciei o tratamento, tinha que ter um calendário de vacina exemplar, porque atuo na área da saúde. Então, não fiz nenhuma atualização depois. E quando recebi o convite deste painel, me atentei para isso. Estamos pensando muito na vacina da COVID, e o paciente oncológico acaba esquecendo das demais vacinas, que também são muito importantes. ”

Tema: VEM FALAR DE VIDA: A mulher com câncer de mama no SUS

Organizador: Roche

 

Moderado pela Cris Bartis, graduada em Comunicação com ênfase em Administração e Marketing e uma das criadoras e apresentadoras do podcast Mamilos, este bate-papo teve como foco a compreensão da importância do diagnóstico precoce do câncer de mama, do tratamento adequado e oportunidades e desafios para o diagnóstico e tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS).

Cris Bartis iniciou a roda de conversa falando a respeito do marco que a descoberta da doença costuma criar e como é a vida da paciente após isso.

“95% é a chance de cura quando o câncer de mama é identificado no estágio I, é um número muito alto, muito positivo. Faz tanto sentido sobreviver, que faz sentido a gente falar de vida, as mulheres continuarão a viver depois do diagnóstico preciso e do tratamento preciso”, ela refletiu.

Angélica Nogueira, doutora em oncologista, mestre em Saúde da Mulher e membro da ASCO e SBOC, pontuou que, no Brasil, o câncer de mama tem algumas especificidades quando comparado com outros países.

“O câncer na mulher brasileira tem algumas peculiaridades muito relacionadas a deixarmos a doença acontecer. A maioria das mulheres têm 54 anos no momento do diagnóstico, mas 40% tem menos de 50 e a maioria das pacientes são diagnosticadas em estágio inicial, metade das pacientes no estádio II 20% e cerca de 7% a 10% em estadiamento IV. Sendo que 80% delas fazem uso do SUS”, contou.

Ela também falou sobre a necessidade de realizar a mamografia de rastreio, de haver uma melhor equidade de mamógrafos entre os estados brasileiros  e como o acesso à informação pode auxiliar nisso.

“A saúde no país é um direito de todos e um dever do estado. Se tem algo que tem impacto na cura ou na qualidade de vida, a paciente que tem acesso à informação, terá acesso ao tratamento”, afirmou.

Fabiana Baroni Makdissi, médica mastologista, doutora em Oncologia e membro da Academia Brasileira de Mastologia, alertou que é fundamental as pacientes compreenderem e reconhecerem o nome e sobrenome do seu câncer.  Para ela, essa é a única forma da pessoa entender os tratamentos propostos pelos médicos.

“Do mesmo modo que as pessoas são diferentes, os cânceres também são”, reforçou.

Ela também realizou uma comparação entre o tumor de mama no Brasil e em outros países.

“A mortalidade no nosso país é maior que países de primeiro mundo, porque a gente tem mais casos de pacientes com tumores que estão começando a ficar em estágio mais avançado”, disse.

A Drª. Fabiana fez um apelo às mulheres em geral, aconselhando que “quem procura acha e quem acha cura. Você nunca vai achar algo que não estava lá antes, você só não estava procurando.”

Tema: O protagonismo do paciente oncológico

Organizador: Abrale

 

Tratar a pessoa e não a doença é o primeiro passo para que os resultados esperados sejam alcançados. Questões como empoderamento do paciente, saúde emocional, abandono do tratamento são de grande importância para um bom desfecho. Neste painel, membros do Comitê de Pacientes da Abrale – Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia apresentaram suas histórias e experiências como pacientes protagonistas.

Marina Aguiar, paciente oncológica e médica hematologista, especialista em transplante de medula óssea, contou que sempre foi uma jovem cheia de sonhos, com muita saúde e feliz. “Mas, mal sabia que seus planos e projetos estavam prestes a escorrer pelo ralo”, relembrou.

Em 2006, com 18 anos, ela recebeu o diagnóstico de leucemia linfoide aguda de mau prognóstico e percebeu que tinha duas opções: perseverar, ir em busca da sua cura e ser protagonista da sua própria vida ou desanimar e desistir.

“A leucemia foi resistente à quimioterapia, foi difícil de entrar em remissão e a única opção de cura era o transplante de medula óssea e meu único irmão não era compatível. Então a opção era ir em busca de um doador no redome e a gente sabe que no banco, a nossa chance é de 1 em 100 mil de encontrar um doador”, disse.

Marina relatou todas as barreiras que teve que enfrentar, os protocolos que não deram resultado e as diversas tentativas que falharam. Relembrou que sua mãe quis engravidar e utilizar o sangue de cordão umbilical para fazer o transplante. Mesmo o médico dizendo que Marina não iria aguentar os nove meses da gestação, sua mãe engravidou e teve gêmeos, porém os bebês nasceram prematuros e a quantidade de células no cordão era insuficiente.

“Foi então que o novo protocolo de tratamento surtiu efeito e a tão sonhada remissão da leucemia cresceu. Com isso, a curiosidade por saber mais sobre as doenças do sangue aumentou e o interesse pela medicina surgiu”, compartilhou.

Heitor William Campos, formado em Enfermagem, paciente de leucemia mieloide aguda – M3 e membro do Comitê de Pacientes da Abrale, atuava na área da saúde e contou que o comum era somente focar no paciente em si no momento da alta. Mas, quando ele se tornou um paciente, entendeu a importância de um atendimento mais humano.

“Uso muito as redes sociais para levar informação a outros pacientes. Vivemos em um mundo de fake news, então quero ajudar a combater. Não precisamos esperar acontecer com a gente, para nos preocuparmos com o outro. Precisamos, todos, aflorar esse cuidado”, declarou.

Duda Dornelas, paciente de leucemia mieloide crônica (LMC), descobriu o câncer enquanto fazia exames pré-nupciais.

“Logo no início eu perdi a resposta terapêutica e por isso fui indicada para o TMO e tive que buscar um doador no REDOME e consegui um doador 100% compatível. Eu brinco, dizendo que ganhei na loteria. Fiz o transplante e hoje estou totalmente curada”, disse.

Durante o tratamento, ela conheceu a Abrale e passou a ter contato com diversos pacientes. “ É importante não nos compararmos, já que cada história é diferente. Mas trocar experiências é sempre bastante enriquecedor”, confessou.

Thiago Andrade Brasileiro, Engenheiro Agrimensor e de Segurança do Trabalho, membro do Comitê de Pacientes da Abrale e também paciente de LMC, ressaltou a importância do apoio da Abrale para os pacientes na resolução de casos individuais e coletivos.

“Meu médico sempre me disse para não procurar informações no Dr. Google. Ele me disse para procurar a Abrale e, realmente, a associação tem muito conteúdo de qualidade. Inclusive, o Observatório de Oncologia fez um estudo sobre LMC bastante completo, falando sobre quantos homens e mulheres têm a doença, o valor do tratamento no SUS. (…) Vamos ajudar a salvar vidas. Podemos ser multiplicadores do bem. O caminho é difícil, mas conseguimos vencer”, falou.

Tema: Nosso Papo Rosa sobre Sexualidade e Câncer

Organizador: Movimento TJCC

 

Além da sexualidade não ser, para muitos pacientes, uma prioridade logo após o recebimento do diagnóstico de um câncer, esse assunto também costuma ser rodeado de muito tabu, o que faz com que ela fique de lado durante o tratamento. Sendo que esse tópico se torna um tabu ainda maior quando envolve a população LGBTQIA+.

Sabrina Chagas, oncologista, especialista em Medicina Integrativa e Vice-Presidente e Idealizadora do Instituto Nosso Papo Rosa, disse que, atualmente, as mulheres representam 49% da população brasileira, enquanto os homens são 51%.

“Dentro desses números a gente tem a população LGBTQIA +, mas a gente não tem esse número muito definido porque as pesquisas não apresentam uma resposta para isso. Mas são mais de três milhões de transexuais, ou seja, mais de 28 maracanãs cheios”, informou.

Em seguida, a Drª. Sabrina falou sobre a importância do profissional estar atento às necessidades da população LGBTQIA +.

“Ao longo da história, a gente perdeu o olhar para o paciente como um todo e o paciente é muito mais que a doença. Ele costuma ter uma caminhada muito solitária porque só ele sabe as angústias e o medo que ele tem. Quando um médico está de frente com o paciente, ele precisa entender que, muitas vezes, a pessoa tem vergonha ou não quer falar e ele precisa aprender a estender a mão para escutar o paciente para que sua qualidade de vida melhore como um todo”, pontuou.

Maria Julia Calas, médica ginecologista e mastologista e Presidente e idealizadora do Instituto Nosso Papo Rosa, discutiu a atenção Oncológica para a população trans com diagnóstico do câncer de mama.

“Nós não temos dados estatísticos da incidência de câncer de mama em transexuais. Nós temos uma literatura não muito robusta com apenas relatos de casos. (…) Os transexuais, além dos medos relacionados à doença, têm muitos desafios a serem vencidos, porque têm maior tendência a ter questões psicológicas. São pessoas que têm uma maior predisposição a drogas e álcool e isso pode gerar diversas doenças e essas doenças precisam ser tratadas. Há ainda o problema de acolhimento dessas pessoas, são poucos os profissionais da saúde que atendem essa população”, afirmou.

A Drª Maria Julia concluiu que são necessários programas de treinamento para profissionais da saúde para orientá-los e ensiná-los a lidar com a sexualidade e o câncer de mama.

Tatto Oliveira, Fundador e Mediador de Rodas de Conversa Temáticas do Núcleo de Resistência; Grupo LGBTQIAP+ de apoio social, destacou que o corpo trans não transita nem pelo Outubro Rosa, que enxerga só a realidade do corpo feminino, nem pelo Novembro Azul, focado no corpo do homem.

“O meu corpo é um corpo novo para a medicina e para os profissionais de saúde. Eu acredito que, a partir desse momento, a gente pode ajudar não só para  a criação de políticas públicas, mas para o atendimento também. (…) Essa galera que chega agora jovem, quer conhecer, fazer sozinho, por conta ou com os amigos e eu vejo isso como algo tão negativo, porque isso afasta cada vez mais a medicina de entender o que é um corpo trans”, declarou.

Ana Paula Andreotti Amorim, Médica de Família e Comunidade e atuante na área da saúde da população LGBTI+, controle social no SUS e violência de gênero, realizou uma apresentação, explicando, didaticamente, as diferenciações dos aspectos relacionados à sexualidade e como utilizar isso para abordar melhor a população LGBT.

“A gente não pode esquecer que gênero é um fator determinante no atendimento de saúde. A gente olha para a identidade de gênero que foi designada a ela no nascimento, e tem pessoas que não se identificam com o gênero que foi dado a ela no nascimento. Uma pessoa que foi designada como sexo masculino ao nascimento, essa pessoa pode se entender dentro desse espectro, mas ela também pode se entender dentro do espectro mulher”, esclareceu.

De acordo com com a Drª. Ana Paula, ter conhecimento sobre esse assunto, auxilia não somente a fazer um melhor acolhimento do paciente – chamando-o inclusive pelo seu nome social, que é um direito garantido por Lei – mas também oferecer serviços adequados para o rastreio do câncer

“Temos que estar preparados para atender sem julgamento, pensando um método clínico adequado, não patologizar, e entender que a diversidade existe e legitimar e entender que há necessidades específicas dessas pessoas. (…) Muitas vezes, não se oferece para pessoas transexuais coisas que se oferecem para toda a população. Por exemplo, rastreamento para o câncer de colo de útero por meio do papanicolau, que deve ser oferecido para todas as pessoas com colo de útero que já tenham tido alguma penetração sexual na vida”, disse.

O painel foi moderado pela Fernanda D´Avila, jornalista, radialista e apresentadora  e produtora de rádio.

Tema: Equidade no Tratamento Oncológico

Organizador: IVOC

Atualmente, o câncer é a principal condição de saúde no mundo, com uma média anual de mais de 17 milhões de casos.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta mais de 450 mil novos casos (excluindo o câncer de pele não melanoma) anualmente, entre 2020 e 2022.

Mas, é importante lembrar que esta não é uma doença nova. De acordo com o Dr. Manoel Carlos Leonardi Azevedo Souza, oncologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, existem descrições de neoplasias antes de cristo e um papiro chega a mostrar um tumor no seio de uma mulher. Porém, até o século 18 não existia microscópio. Os tumores que cresciam, eram cortados. E sem anestésico. Foi aí que veio a questão do caranguejo (câncer, em grego), porque ele, embora fosse cortado, aparecia em outros lugares, como o animal. 

“Com as guerras, tivemos muitos eventos químicos, e isso fez com que entendêssemos o comportamento da química e física, também nos seres humanos. A partir da máquina de guerra surgiram os primeiros quimioterápicos. Em 1951, tivemos a descoberta da estrutura do DNA. Com isso, foi descoberto o segredo de como fazer um organismo vivo. E a partir disso, mais uma maneira de entender o câncer”, explicou o médico.  

Nas décadas de 60, 70 e 80, os estudiosos começaram a pesquisar como seria possível mexer no DNA. E isso facilitou a criação da terapia personalizada. 

“O câncer não é uma doença única. Por isso, é preciso avaliar cada indivíduo. De alguns anos para cá, a quimio tem sido cada vez mais eficiente e menos tóxica. E pode ser associada a outros medicamentos. E isso nós fomos aprendendo com o tempo e desenvolvemos algumas moléculas (medicamentos) orais, as chamadas terapias alvo, que atuam somente no câncer. Mais recentemente, descobrimos a imunoterapia e CAR-T Cell, uma terapia muito promissora no tratamento do câncer”, enfatizou o Dr. Manoel. 

Com as novas terapias, e aumentos dos novos casos de câncer, o sistema público de saúde começou apresentar fragilidades no atendimento ao paciente. Para Gabriela Tanos, economista, não adianta ficar só reclamando do Sistema Único de Saúde (SUS). 

“É importante entendermos que somos parte da mudança que queremos. E não é só o investimento financeiro. É preciso ter uma boa gestão. Se não temos uma melhora na circulação desse recurso, na ineficiência que ele é gasto, sempre vamos precisar de mais dinheiro.  Ao analisar a política, percebemos a sobreposição de alguns objetivos. Na Oncologia não existe uma lista de medicamentos no SUS, cobertos ou não cobertos. No sistema público não é feita a distinção, se o medicamento é oral, na veia. O medicamento, no SUS, será retirado pelos pacientes em alguma unidade CACON/UNACON. São mais de 300 em todo o Brasil. Então, o Governo faz uma parte do financiamento para o Estado, e o Estado é quem irá repassar os valores aos hospitais especializados. E são os hospitais que farão a gestão do paciente”, comentou. 

Dr. Fernando Maluf, fundador do Instituto Vencer o Câncer, abordou o projeto Sim para Quimio Oral, com foco na saúde suplementar. 

“Desenhamos este projeto  em 2018 e em 2020 ele chegou à Câmara e conseguiu 257 assinaturas para a tramitação de Urgência. Em julho de 2021, foi aprovado, após uma campanha intensa de assinaturas da sociedade. Mas, o presidente Jair Bolsonaro acabou vetando o projeto, o que foi uma decepção para a comunidade médica e, principalmente, para os pacientes. Nossa ideia é desburocratizar o acesso aos medicamentos orais. O tempo de demora hoje atrapalha, e muito, o andamento do tratamento, por conta da reavaliação da Anvisa. Nós conseguimos mobilizar milhões de pessoas da sociedade, incluindo artistas, pacientes, familiares, veículos de comunicação. Precisamos pensar no benefício destes medicamentos, e não se é venoso ou oral. Inclusive, hoje a maior parte dos medicamentos são orais, por conta dos mecanismos de terapias alvo. Não podemos mais ficar reféns da avaliação da ANS. E nossa luta continua para que o projeto seja aprovado. E estou muito certo que conseguiremos vencer esse veto”.

Agora, o projeto será votado novamente pelo Senado e Câmara e a expectativa é que o veto do presidente seja cancelado. 

Com tantos problemas de acesso, buscar a justiça para garantir o uso dos medicamentos tem sido um mecanismo muito usado pelos pacientes. 

Segundo Fernando Aith, diretor geral do Centro de Pesquisas em Direito Sanitário da USP, o fenômeno da judicialização começou em 1990, a partir da nova constituição, quando a Saúde passou a ser reconhecida pelo Estado como um serviço essencial. E foi nessa mesma época que o sistema privado de saúde passou a ter uma nova regulamentação, por meio dos planos de saúde.

“A judicialização da saúde é quando um cidadão vai à justiça para pedir saúde, seja do sistema público, seja do sistema privado. Nos anos 90, isso começou a ficar muito forte, associado aos tratamentos de HIV. Isso porque eles eram muito caros e mesmo as pessoas mais ricas não tinham condição de pagar. Assim, com a causa ganha, o Estado era obrigado a disponibilizar estes medicamentos, sem que o cidadão precisasse pagar diretamente por isso. E de lá para cá, isso só cresceu”.

De 2010 a 2020, vemos um novo fluxo de judicialização para doenças raras e também para medicamentos oncológicos.

“Em uma pesquisa que fiz, na USP, encontrei que tínhamos, em 2018, um milhão de processos jurídicos pedindo os mais variados serviços de saúde. Percebemos que grande parte deles se deve a um gap de anos entre o registro de um novo produto na Anvisa, e a sua incorporação para a disponibilização na rede pública ou na rede suplementar. O alto custo dos medicamentos também motivam uma burocratização. E enquanto isso não mudar, continuaremos a ter este grande volume de judicialização. Mas a melhor forma é uma incorporação rápida desses medicamentos, tanto no campo do sistema público, quanto do sistema privado”, finalizou. 

Tema: Neoplasias femininas – Os desafios para o câncer de ovário e endométrio

Organizador: GSK

 

O Outubro Rosa vem para lembrar que falar sobre a saúde da mulher é, sem sombra de dúvida, um tema muito importante. Seja na prevenção, no diagnóstico ou no acesso ao tratamento, as neoplasias femininas precisam sempre estar em foco. 

O câncer de endométrio, por exemplo, atinge na maior parte mulheres com 61 anos,  sendo 54% brancas, 38% pardas, 55% com menos de 8 anos de escolaridade e 68% dos diagnósticos em estágio I e II. O tempo entre diagnóstico e tratamento é maior que 60 dias, em 58% dos casos.

De acordo com Eduardo Paulino, médico do grupo Oncologia Do’r, a idade é um fator de risco importante, mas a obesidade também está na lista. Dentre os fatores protetores está a paridade (ter filhos) e o uso de anticoncepcionais. 

“Nos próximos anos haverá um aumento de incidência deste tipo de câncer, no Brasil, por conta da obesidade – 38,2% das mulheres brasileiras serão obesas até 2022 e de acordo com o IBGE, a expectativa de vida até 2023 será 80 anos. O câncer de endométrio acontece pós-menopausa e o sangramento anormal pode ser considerado um possível sintoma. Quando avançado, as mulheres podem apresentar dores abdominais, por exemplo. A doença pode ser diagnosticada facilmente com biópsia”, salientou. 

O tratamento será baseado no estadiamento. Nos primeiros estadiamentos, o tratamento será a cirurgia. Nos estádios mais avançados, pode ser radioterapia e até mesmo quimioterapia. No estágio IV, o tratamento costuma ser paliativo, com quimio ou hormonioterapia, porque ele já passou para outros órgãos.

“Já o câncer de ovário atinge mulheres com idade média de 53 anos e 67% se apresentam em estádios avançados. O tempo entre diagnóstico e tratamento é maior que 60 dias em 27% das vezes. Ele é o sétimo tumor mais comum nas mulheres. Este tipo de câncer tem subtipos e os tumores epiteliais são os mais comuns. Idade avançada e obesidade também são fatores de risco, além da predisposição genética”, enfatizou o médico. 

Os sinais não são específicos, então a mulher acaba por não apresentar sintomas. Por este motivo, essa doença é diagnosticada em estadiamentos mais avançados, na maior parte dos casos.

O tratamento também é baseado no estadiamento. 75% das pacientes são diagnosticadas em estadiamentos III e IV. Para estádios iniciais, a indicação é cirurgia. O tratamento para a doença localmente avançada também é cirúrgico, e toda a doença pode ser retirada pelo cirurgião especializado. Depois, é possível que seja indicada a quimioterapia. Também há drogas importantes, que mudaram o tratamento do câncer de ovário. 

“Dentre os desafios enfrentados pelas mulheres, para ambos os tipos de cânceres, estão as barreiras de acesso. Apenas 35% das pacientes com câncer ginecológico iniciam o tratamento com menos de 30 dias do diagnóstico. A radioterapia também é uma questão, já que há carência de máquinas em diversas regiões do Brasil”, lembrou.  

Para o Dr. Agnaldo Lopes da Silva Filho, ginecologista e presidente da FEBRASGO, para o câncer de ovário, uma maneira de reduzir a mortalidade é a questão dos testes genéticos. 

“Dessa maneira, conseguimos identificar as pacientes de risco e encontrar novos marcadores tumorais. 78% das mulheres demonstraram melhora na sobrevida, quando atendidas por uma equipe profissional especializada. O tratamento é multidisciplinar, então a equipe deve ser formada por cirurgiões, fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos. Atualmente, as mulheres encontram dificuldade de acesso aos ginecologistas especializados em Oncologia”. 

Anne Carrari descobriu o câncer de ovário metastático em 2015. Ela tem 46 anos, é mãe e graduanda em Saúde Pública, pela USP. 

“Meu único sintoma foi um inchaço abdominal persistente e os três médicos que procurei diziam que eram gases, que eu não precisava me preocupar. E quando veio o diagnóstico, outros órgãos já estavam acometidos. Iniciei o tratamento com cirurgia e quimo. Em 2018, tive minha primeira recidiva, e novamente realizei o tratamento. Agora, no começo de 2021, uma nova recidiva, e não dava mais para operar. Então sigo em tratamento quimioterápico”, contou.

Perceber que não haviam outras pacientes com quem pudesse conversar a respeito despertou uma nova ideia para ela. 

“No começo, eu precisava achar alguém que estivesse passando por uma situação parecida, para receber um amparo. E não encontrei. Então, entendi que eu deveria ajudar e falar. Sou voluntária do Oncoguia, do Todos Juntos Contra o Câncer. Hoje uso minhas redes sociais para falar a respeito e ajudar as mulheres que precisam. O câncer ressignificou minha vida. E quando o paciente é munido de informação, ele se engaja e consegue entender e protestar por seus direitos. O empoderamento nos traz esperança para um novo cenário oncológico. A paciente com câncer de ovário não é apenas um CID. Somos mulheres, com histórias, aspirações”. 

Cristiane Luz foi diagnosticada aos 36 anos com um câncer de endométrio traiçoeiro. 

“Crescemos ouvindo que sentir dores ao menstruar, na relação sexual, é algo normal. E não é! Meu diagnóstico foi tardio e eu já tinha metástase em todo o abdômen. Por isso, precisei fazer cirurgia, seguido de quimioterapia. A reversão da ileostomia foi meu grande desafio. Ela é ligada ao intestino delgado, então toda vez que eu comia, a bolsinha enchia. Como perdi o intestino, eu sentia dores absurdas e ia muito ao banheiro. Acabei perdendo muito peso, cheguei a pesar 40kg. Eu tinha medo de comer. Mas, com o passar do tempo, o que sobrou do intestino foi se adaptando, e eu fui voltando ao meu peso. A musculação me ajudou muito”.

Mas sempre tem algo bom em meio ao caos que o câncer pode trazer à vida. 

“Fui um ano voluntária do Hospital Mãe de Deus e eu pedi que fizessem um banheiro para os ostomizados. E eles fizeram. Também lancei meu livro “A mulher de bolsa”, e nele contei tudo o que passei por conta da bolsinha. Foi uma maneira que encontrei de ajudar outras mulheres nessa situação. Estava em remissão há nove meses e veio a recidiva, no peritônio, em 2017. À época ainda não se falava em cura e meus médicos achavam melhor aguardar, para iniciar algum protocolo. E de fato, não foi necessário. Há mais de quatro anos, faço exames de controle, mas a doença está parada. Então não precisei entrar com nenhum protocolo. Para mim, a espiritualidade foi o que me salvou. O câncer é agressivo, mas não é páreo para o amor, incluindo o amor próprio”, salientou Cristiane. 

Agora, que o câncer é um desafio em diversos setores, isso não é segredo. E na pandemia da COVID-19, ficou ainda pior. 

“O parlamento brasileiro precisa trabalhar, junto, para que as leis dos 30 e 60 dias sejam cumpridas. Quem tem câncer não pode esperar. Também precisamos dar conta dessa demanda reprimida que o novo coronavírus nos reservou. Tenho muito orgulho de ter sido a autora do primeiro projeto de lei, em 2011. E hoje temos construído novas normas, para garantir esse acesso. O Movimento Todos Juntos Contra o Câncer tem o papel de ajudar a garantir o entendimento da população de seus direitos e da existência dessas leis. As pesquisas, os novos tratamentos, têm avançado muito. E nós precisamos atuar para que o paciente, do SUS e planos de saúde, possam ter acesso às novas tecnologias. E é nisso que estamos, aqui na Câmara Federal, trabalhando nesse momento”, finalizou a Deputada Carmen Zanotto. 

Tema: Cuidados adicionais importantes ao paciente onco-hematológico

Organizador: Hospital Albert Einstein

Quando falamos em cuidados, é importante sempre pensar de forma abrangente. Diagnóstico precoce e tratamento correto é de praxe. Mas a qualidade de vida do paciente nunca pode ficar de lado. 

Em 1982, a leucemia mieloide crônica (LMC) tinha uma curva de sobrevida bem ruim e dificilmente os pacientes sobreviviam após o diagnóstico. Com a chegada dos novos remédios, os inibidores da tirosina quinase, em 2000, a sobrevida dos pacientes passou a ser igual a de alguém que não tem a LMC. 

“E tudo isso aconteceu por meio da pesquisa clínica. Participar de um estudo, como estes com os inibidores, significa poder ter uma oportunidade pela vida. Óbvio, há cuidados. Toda pesquisa clínica envolve que o paciente seja informado sobre o tratamento no qual será participante. O paciente receberá o Processo de Consentimento Livre e Esclarecido, e o médico deve auxiliá-lo a entender este documento. E claro, ele precisa ter um tempo para aceitar, ou não, a participação. Também há o conceito de evento adverso, para que, há qualquer evento apresentado, deva ser imediatamente reportado a todos os envolvidos na pesquisa. E é importante salientar que o paciente pode sair de uma pesquisa clínica quando bem entender. Os estudos clínicos são uma oportunidade para que diversos outros pacientes possam ser beneficiados com novas possibilidades terapêuticas. E o ambiente em que estes estudos são realizados é completamente seguro. Entendo que a pesquisa clínica é uma necessidade da ciência para o desenvolvimento de novos procedimentos”, salientou o Dr. Nelson Hamerschlak, coordenador da Onco-Hematologia do Hospital Israelita Albert Einstein. 

A trombose também deve ser um cuidado de urgência. Isso porque, quando somamos os fatores de riscos, aliados ao câncer, afirmamos que o paciente oncológico tem mais riscos de desenvolver trombose. A incidência é 5 a 7 vezes maior de desenvolver a doença após cirurgia e um maior risco hemorrágico por conta do tratamento. Essa é a segunda causa de morte nestes pacientes. Por isso, essa é uma complicação importante. Ele tem um pior prognóstico, ou seja, a doença acaba por evoluir de maneira negativa. 

“No diagnóstico, o paciente já tem um risco. Ao fazer um tratamento com quimio, o risco fica ainda maior. Agora, quando o paciente apresenta resposta positiva ao tratamento, o risco diminui. Mas a trombose pode ser um risco na recidiva.  O tipo do câncer é importante e os que exigem maior cuidado são pâncreas, pulmão, mama e próstata. Pacientes com linfomas mediastinais, a incidência varia de 15% a 60%. É importante saber o tipo de doença, para fazer a profilaxia correta. Nas leucemias, por conta do uso de cateter e quimio, o risco também vai aumentando. O objetivo é salvar vidas e tratar corretamente. A cada 37 segundos, uma pessoa no mundo morre por conta da trombose”, contou João Guerra, coordenador médico do setor de Hematologia e Patologia do Hospital Israelita Albert Einstein. 

Dra. Maria Ester, coordenadora da Medicina Integrativa do Hospital Israelita Albert Einstein, falou sobre a importância de utilizar este tipo de atendimento como forma complementar ao tratamento convencional. 

“A Medicina Integrativa não é Medicina alternativa. Ela tem comprovação científica. No Centro de Oncologia e Hematologia do Einstein este serviço é pioneiro e oferecemos técnicas mente-corpo que visam proporcionar bem-estar, relaxamento, auxiliar no manejo dos sintomas e estimular o autocuidado.  Oferecemos práticas baseadas na yoga clássica, com posturas gentis e exercícios respiratórios, além das práticas meditativas. Oferecemos exercícios de toque, como massagens. Somos treinados para o cuidado compassivo, então trazer a compaixão para os cuidados em saúde, sempre para diminuir o sofrimento do outro, seja este o paciente, familiares e até mesmo o profissional de saúde. Em 2018 a ASCO veio endossar um guideline, feito sobre a SIO, a respeito do uso dessas práticas em pacientes com câncer de mama. Como evidências, estão a redução da ansiedade e estresse, por meio da musicoterapia, meditação; transtornos do humor e depressão, por meio de meditação, musicoterapia; melhora da qualidade de vida, com meditação e yoga; e redução de náuseas e vômitos, induzidos por quimioterapia, acupressão e acupuntura”, falou.

E por falar em acupuntura, os primeiros escritos sobre esta terapia apareceram com o Imperador Amarelo, o 3º lendário da Dinastia Imperial, que escreveu em 2594 a.C. o livro Huang Di Nei-Ching, com os primeiros conceitos teóricos dessa prática milenar. 

De acordo com o Dr. Alexandre Massao Yoshizumi, diretor de ensino do Colégio Médico de Acupuntura de São Paulo,  a teoria da acupuntura é baseada em Yang e Yin, que objetiva trazer o equilíbrio ao corpo, já que quando estamos em desequilíbrio, podem aparecer as doenças e a evolução dos sintomas. Também há a teoria dos 5 elementos, baseada nos elementos da natureza fogo, madeira, terra, água e metal, que representam nossos órgãos. 

“Sobre os benefícios da acupuntura no câncer, não são esperados benefícios diretos sobre a doença, mas sim sobre os sintomas relacionados à doença ou ao seu tratamento. Dentre eles, destacam-se a intensidade da dor, a melhoria das limitações e desempenho das atividades diárias, a redução do consumo de medicamentos para dor e até mesmo o retorno mais rápido ao trabalho. Em termos de evidências, existe uma publicação feita em 2018 que mostra quais são os sintomas em que ela responde muito bem, como dores de cabeça, dores lombares crônicas, dentre outras. Um outro trabalho mostra a interação entre acupuntura e o soluço devido ao câncer. Ele conclui que há evidência como uma intervenção eficaz e segura para esta solução. Para os pacientes que não podem usar agulhas, podemos usar o laser para estimular os pontos do corpo”, finalizou. 

Tema: Religiosidade e Espiritualidade durante a pandemia de Covid-19

Organizador: ABRALE e AME-SP

Falar sobre espiritualidade em saúde já é uma realidade. Embora a fé, as crenças e até mesmo a religiosidade caminhem com a humanidade a milhares de anos, na ciência nem sempre foi assim. Afinal, existiam muitas dúvidas se, de fato, o lado espiritual poderia ajudar ou atrapalhar o doente. 

Mas, de acordo com o Dr. Marcelo Saad, médico e diretor da Associação Médico-Espírita de São Paulo (AME), estudos comprovam a ligação causal entre bem-estar espiritual/religioso e uma maior saúde física e mental do indivíduo. 

“E isso é comprovado de maneira metodológica, além de ser clinicamente relevante. Em uma pesquisa recente, feita no Google e usando o termo exato ‘saúde espiritual’, encontramos mais de 420 palavras-chaves de estudos. As necessidades espirituais têm a ver com propósitos, questionamentos existenciais. Por isso, o apoio espiritual é, sim, um cuidado fundamental. E deveria ser entendido da mesma maneira que outros tipos de apoio, como o psicológico, são compreendidos”, disse.

É importante pontuar que o cuidado espiritual pode ou não estar relacionado com a religião. Para nutrir a dimensão espiritual, sem estar relacionada à religiosidade, podemos estar abertos à inspiração, fortalecer as visões filosóficas e humanísticas, passar tempo com a natureza, arte, abrir espaço para o que lhe é significativo, cultivar a esperança, gratidão, além de despertar o amor.

Durante a pandemia da COVID-19, por exemplo, viu-se que a parte religiosa e espiritual ficou ainda mais importante. Artigos mostram que permanecer espiritualmente saudável aumenta os parâmetros físicos e a resistência a infecções. 

“Mas a disponibilidade ao apoio religioso e espiritual precisa de maior atenção. Isso porque hoje não há leis que obriguem, por exemplo, os serviços de saúde a oferecerem esse tipo de cuidado. Este serviço é importante demais para que fique disponível apenas à disposição do local. Afinal, se as outras ciências são vistas como importantes e que devem ser oferecidas, porque não o cuidado espiritual entrar neste lugar também? Agora, SUS e planos de saúde deveriam custear esses serviços. Mas, qual seria a formação ideal do profissional, para realizar este cuidado? Ainda não temos. É necessária a criação deste profissional, com uma formação adequada”, comentou o Dr. Marcelo. 

O papel da religião e da espiritualidade é mais do que um dado importante. Há muito tempo é considerado uma parte essencial das experiências cotidianas, emoções e rotinas dos indivíduos. E a pandemia trouxe uma revisão da funcionalidade de ambas na vida das pessoas. 

“Ainda que a religião tenha um papel essencial para alguns, no que diz respeito à espiritualidade, não podemos colocar de lado os cuidados com a saúde. O caso que aconteceu no Arkansas (EUA) é um exemplo, onde, após uma reunião de estudos bíblicos, 38% da comunidade se viu infectada pela COVID-19, sendo 50% destas pessoas idosas, com mais de 65 anos. As medidas sanitárias, no ramo da religião, não foram desnecessárias”, explica o Dr. Domingos Cabo, médico de família e comunidade do Hospital Sírio Libanês.

De acordo com ele,  a teologia cristã há muito reconheceu a importância do lugar físico, mas hoje os teólogos enfatizam também a necessidade do espaço, até mais que o lugar. 

“Ou seja, eu não preciso, necessariamente, ir a uma igreja, para poder escutar a palavra, participar de um culto religioso ou orar.  A retomada das atividades vai exigir mudança no comportamento de toda a população, e a colaboração mútua de todos os envolvidos será de vital importância, pois qualquer ação que indique descrença na gravidade da atual situação ou desrespeito ao momento que vivemos, poderá nos fazer retroceder. Nos tempos de pandemia passa a ser sagrado refletir sobre nossa relação conosco, com o outro, com a natureza. Somos parte do todo. Devemos cooperar mais, e competir menos. E precisamos entender que se eu cuido, logo eu sou. Precisamos, sim, voltar para as nossas atividades religiosas. Mas os cuidados devem ser continuados e precisamos ver o todo, e olhar a espiritualidade de maneira transcendente”, falou.  

De fato, a COVID-19  trouxe muitos sentimentos de dúvidas, medo e ansiedade. E, como vimos, os templos religiosos e a espiritualidade passaram a ser ainda mais buscados, para que as pessoas pudessem encontrar as respostas. 

Para o Dr. Fábio Nasri, presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo, o apoio espiritual também pode acontecer à distância, seja pelas palavras e a tonalidade da voz, seja pelas atitudes de quem receberá as pessoas. 

“Precisamos estar treinados para perceber estes sinais. Já existem estudos sobre preces virtuais e observou-se que o grupo que recebeu a prece à distância teve melhores resultados, do que aquele que não recebeu prece alguma. Isso nos mostra que quando fazemos uma prece para alguém, ou por nós mesmos, ainda que à distância, pode sim ajudar”, explicou.  

No início de 2020, a AME entendeu que era importante começar a atender as pessoas e abriu um canal de atendimento, para que elas pudessem contar como estavam, quais sentimentos apresentavam e se precisavam de algum tipo de apoio. 

“Tivemos mais de 790 solicitações, de todo o Brasil, sendo que 62% dos casos se concentra no Estado de SP. Estas ligações, que são recebidas por médicos de todo o Brasil, duram cerca de 30 minutos. Mas em 64% dos casos, é necessário um retorno, por conta de pensamentos depressivos e suicidas. Essas pessoas são encaminhadas aos psiquiatras presentes em nossa rede.  E o que nos une neste tipo de atendimento? O lugar? O tipo? Não, é a humanidade”, finaliza. 

Tema: Paciente oncológico: a jornada da saúde mental de homens e mulheres

Organizador: LIBBS

Tratar o câncer é tão importante quanto tratar das questões emocionais, porque o adoecimento mental também exige atenção. Até ¼ dos pacientes oncológicos apresentam alterações sentimentais, como ansiedade e depressão, e isso não pode ser ignorado.

De acordo com a Dra. Adriana Orcezi, professora de Ginecologia na Universidade Estadual de Campinas, é preciso sempre conversar com o paciente.

“No momento em que indicamos a biópsia, é importante falarmos sobre todas as possibilidades diagnósticas que podem vir, para que o paciente se tranquilize. Diante do diagnóstico positivo é essencial falar sobre o tratamento e as possibilidades de cura, que são altas. Entendo que precisamos acalmar o paciente.  No caso do câncer de mama, por ser no órgão que está muito ligado à feminilidade, beleza e ao fato de ser mãe, é possível que afete na sexualidade. A consequência desse tratamento é o ressecamento vaginal, dor na relação, resposta sexual menos satisfatória. Nesse momento, entra o nosso papel de falar sobre todas as possibilidades terapêuticas. Hoje, nós temos tratamentos extremamente desenvolvidos que irão resgatar a atividade sexual e dar a percepção real que a sexualidade não irá mudar”, pontuou.

Para o Dr. Felipe Moraes, oncologista clínico no ICESP, a percepção da saúde passa por diferentes esferas.

“Eu divido em três etapas. A primeira é em estar bem, com as funções biomédicas em ordem. A segunda é o sentir-se bem, ter uma percepção clara que essa saúde atende o cotidiano, e a terceira é o ser bem, o fato de conseguir realizar as atividades e atender a plenitude das expectativas como indivíduo. As doenças afetam essas esferas de formas diferentes. Um resfriado dificilmente vai te levar a refletir sobre a vida. Já o diagnóstico do câncer pode afetar todas essas esferas. É nesse momento que se atingem questões importantes sobre o propósito e é nesse momento que a espiritualidade é tocada. Ela se torna não só uma ferramenta, mas um trampolim na atitude de esperança”, comentou.

Existem diversos elementos que vão alterar o cotidiano do paciente e exigir uma capacidade  interna de resiliência.

“No caso do câncer de próstata, se entra na questão da sexualidade, porque o tratamento pode causar impotência, incontinência urinária e, em algumas situações, o bloqueio total de libido. E esse homem se sente fora do campo de sexualidade. Muitas vezes estamos preocupados com a resposta do exame, mas não pensamos nisso, qual a qualidade de vida que se dá depois do tratamento. Às vezes isso pode gerar conflitos internos muito grandes, porque esse homem não percebe como uma troca vantajosa. O ato de falar é terapêutico, é um ato humano”, comentou Dr. Felipe.

De fato, os impactos emocionais são complexos. Mente e corpo são um só e não se pode desconectar. Estudos comprovam que quando a mente adoece, o corpo também adoece.

“As pesquisas apontam que quando uma pessoa recebe uma má notícia, um diagnóstico difícil, ela vai absorver da conversa os primeiros 20/30 segundos, depois ela não absorve mais. Isso acontece como uma defesa, por isso é importante falar em partes, calmamente e muitas vezes o paciente vai perguntar de novo e de novo. Essa pessoa que recebe o diagnóstico já entra num processo de luto. Para focarmos na cura, precisamos de mecanismos de enfrentamento. A rede de apoio é fundamental, porque quando se tem um suporte, seja dos amigos, familiares ou da equipe, você é capaz de desenvolver um melhor enfrentamento”, disse Fabiana Marthes Molli Caron, presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia.

A depressão é bastante preocupante e exige atenção desta rede de apoio.

“É um momento difícil e muitas vezes os próprios tratamentos do câncer têm efeito no SNC, então além de todo o impacto na vida do indivíduo, na vida social, o medo de sentir dor, ainda há o efeito das drogas. Pelo menos ⅓ dos pacientes terão depressão em algum momento do tratamento. Pode ser difícil perceber, porque as pessoas entendem que é normal o paciente se sentir assim. Mas a depressão é sintomática, então é importante focar em sintomas que são psicológicos, que darão pistas melhores, como a falta de prazer. Porque a pessoa pode se sentir triste no momento do diagnóstico, mas depois a vida continua. Agora, uma pessoa que se mantém triste durante todo o tempo, relata uma perda de prazer e isolamento social, está em quadro depressivo. É importante estarmos atentos”, finalizou Sara Bottino, psiquiatra e psicoterapeuta.

Tema: Cuidados Paliativos: do diagnóstico à finitude

Organizador: Movimento TJCC

Os Cuidados Paliativos (CP) visam oferecer dignidade e diminuição de sofrimento para os pacientes. Apesar de ser uma especialidade importante no tratamento oncológico, o Brasil conta com apenas 198 equipes para a execução desses cuidados, apontando a limitação e insuficiência destes serviços no país.

“São muitas as barreiras, mas ao mesmo tempo temos diversas oportunidades. Os Cuidados Paliativos não param de crescer no mundo inteiro e no Brasil também. Sabemos que se realocarmos os CP e colocarmos de uma forma integral no cuidado, eles perderão o estigma e, naturalmente, passarão a ser um apoio. A ideia do CP em fim de vida vem justamente por não termos recursos para dar início no momento adequado. A maioria das equipes não tem profissional exclusivo para este tipo de cuidado. Isso acontece porque não existe política precisa e financiamento específico”, falou o Dr. Douglas Crispim, médico geriatra e paliativista.

A questão financeira também pode ser um impeditivo para que este tipo de tratamento seja oferecido aos pacientes.

“Na minha opinião, se os Cuidados Paliativos dessem lucro, todos os hospitais teriam implementado esse cuidado”, afirmou Dr. Ricardo Caponero, diretor do Centro Avançado de Terapia de Suporte e Medicina Integrativa.

Priscila Machado Beira, psicóloga, contou sua experiência com os Cuidados Paliativos.

“Os CP entraram na minha vida de forma dolorosa, por conta do meu filho, vitimado por um tumor cerebral. Ele recebeu tudo de melhor em relação ao tratamento. Foram 10 anos de muita expectativa, muita ansiedade, sonhos desmoronando, muito aprendizado e esperança. Era uma época que não se falava muito de cuidados paliativos. Somente os profissionais mais ‘sensíveis’ faziam, mas sem dar nomes”, contou.

Para Fabio Gomes, psicólogo da Abrale, a Psicologia em Cuidados Paliativos visa afirmar a vida e dar suporte para toda a família.

“Os CP irão tratar a pessoa, diante das reações da doença. Existem as reações físicas, a parte social, muitas vezes em que é colocada a decisão já pronta ou a decisão integralmente nas mãos da família, que não está preparada para essa decisão. Temos os CP como a própria afirmação da vida, considerando que a morte é um processo natural. O nosso objetivo é gerar uma boa qualidade de vida. As decisões têm que ser em conjunto”, finalizou.

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