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O câncer infanto-juvenil acomete, anualmente, cerca de 12.500 brasileiros, sendo a segunda causa de morte nesta faixa etária. Com os avanços da ciência, são diversas as opções terapêuticas disponíveis, entretanto, questões como diagnóstico tardio, altas taxas de abandono do tratamento e insuficiência de terapias de suporte ainda são uma realidade. 

De acordo com Carolina Motta, psicóloga especialista em Saúde Pública e gestora de projetos de Oncologia no Instituto Desiderata, até 80% das crianças e adolescentes podem chegar à cura, se diagnosticadas precocemente e receberem um tratamento de qualidade. 

“O câncer infantil, no geral, é mais agressivo e evolui de forma muito rápida e, por um outro lado, responde bem ao tratamento. Por isso o diagnóstico precoce é tão essencial. Sempre precisamos ter uma visão mais apurada para os sinais e sintomas, mas o desafio é o número baixo de casos, os próprios sintomas, que podem ser comuns a outras comorbidades de crianças e também poucos espaços de formação na área da Oncologia Pediátrica”. 

Carolina também falou sobre a iniciativa Política do Unidos Pela Cura. 

“O Instituto Desiderata e os gestores públicos e de hospitais de referência no tratamento do câncer infantil, se uniram para melhorar a estrutura de saúde e promover o diagnóstico. São três eixos de atuação – capacitação, fluxo ágil e informação. O tratamento deve ser realizado em hospitais habilitados em Oncologia pediátrica. Outro ponto importante é a qualificação dos registros. Não há um registro nacional específico para o câncer infanto-juvenil e isso precisa mudar”. 

Dra. Silma Ferman, chefe da seção de Oncologia Pediátrica do Instituto Nacional de Câncer (INCA), comentou o Instituto recebe 270 pacientes anualmente, de 0 a 19 anos, mas que tem sido um desafio desenvolver uma estrutura para um bom atendimento deste público. 

“Contamos com a participação do governo e também da sociedade. Nossa estrutura é bastante sofisticada, incluindo o cuidado com a humanização. Normalmente, 43% dos nossos pacientes têm extrema pobreza, os pais têm uma educação básica, e cerca de 65% são pacientes de todo o Estado do RJ. Por isso, nosso cuidado é centrado no paciente e em sua família. 40% dos pacientes chegam com a doença já em estadiamento avançado”, explicou.

Um ponto bastante importante e destacado por ela foi o abandono do tratamento. 

“Quando isso acontece, a chance de cura diminuí drasticamente. Por isso, criamos um projeto para mudar esta realidade. Por meio da nossa ferramenta de pesquisa, fazemos o registro da fase do tratamento, monitoramos diariamente as consultas e, em caso de falta, telefonamos dentro de 24h para a família. Sinalizamos aos médicos responsáveis e fazemos um novo agendamento”. 

O acesso ao tratamento correto também foi pontuado pela médica. 

“O grande problema de uma criança ser tratada em um centro não especializado, é que ela pode ser subtratada ou supertratada, ou seja, não terá acesso aos melhores resultados. A Oncologia Pediátrica é a especialidade do detalhe, por isso não podemos deixar passar nada. A criança e o adolescente precisa estar nas mãos de uma equipe que estudou este tipo de câncer, e que está apta para o tratamento como um todo, incluindo ter tato para a humanização”.

A quimioterapia continua sendo o tratamento mais utilizado, seguido pela radioterapia e os procedimentos cirúrgicos. Entretanto, os casos de estadiamentos avançados preocupam. 

De acordo com dados do Datasus, em 2019 quase 30% foram diagnosticados em estadiamentos 4. Em 2020, esse número aumentou para quase 35%. 

“É muito importante termos estas informações, até para entendermos quem são estes pacientes e como tratá-los da melhor maneira. Afinal, essas crianças já chegam com as chances diminuídas de cura, e isso é um problema bastante grave no estado do RJ. A quantidade de vagas ofertadas na regulação e a questão do paciente chegar em estadiamento avançado, ao que parece, mostra um grande problema de comunicação na atenção especializada. Acredito que precisamos facilitar o acesso e encurtar o caminho da atenção especializada para o CACON e UNACON, fazendo os exames diagnósticos já nestas unidades, para que não haja tanta demora. Os protocolos de entrada são muito rígidos, diminuindo a chance de cura”, falou a Dra. Paula Bortolon, farmacêutica que atua na área de Controle e Avaliação da Secretaria de Estado de Saúde do RJ. 

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