O Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC) tem atuado em defesa de políticas públicas…

Combate ao câncer no Brasil é tema de Seminário em Brasília
Especialistas destacam a necessidade de avanços estruturais
Durante o seminário “Cenário da Oncologia no Brasil – Diagnóstico, Tecnologia, Acesso e Radioterapia“, realizado em atendimento ao Requerimento 236/2024 da deputada Silvia Cristina, especialistas reunidos discutiram os desafios e as perspectivas para melhorar o combate ao câncer no país.
O evento realizado na Câmara dos Deputados no dia 25 de novembro, contou com a participação de importantes nomes da área da saúde e da sociedade civil organizada. No primeiro debate, especialistas trouxeram à tona problemas estruturais, como a baixa cobertura de rastreamento, a desigualdade regional no acesso a especialistas e a precariedade de equipamentos de diagnóstico e tratamento, mas também apontaram avanços e possíveis soluções para enfrentar essas barreiras.
Fernando Maia, consultor do Ministério da Saúde, destacou a importância do diagnóstico precoce e do rastreamento organizado para cânceres como os de mama e colo de útero, mas que ainda há desafios. “Hoje, recomendamos o rastreamento do câncer de mama para mulheres entre 50 e 69 anos e do colo de útero para mulheres entre 25 e 64 anos. Mas a cobertura é alarmantemente baixa. Estados como Paraná alcançam apenas 33,6% das mulheres na faixa etária recomendada, bem abaixo dos 70% preconizados pela OMS. Em Roraima, a cobertura não chega a 7%”, alertou.

Além da cobertura limitada, Maia apontou para dificuldades de acesso, como agendamentos complexos e exames realizados fora da faixa etária indicada, competindo com as pacientes que deveriam ser priorizadas. “Isso demonstra a necessidade urgente de organização da nossa rede de atenção”, afirmou.
No âmbito do tratamento, ele destacou o Painel de Oncologia, ferramenta do Ministério da Saúde que monitora o cumprimento da Lei dos 30 e 60 dias. Em 2023, 38% dos pacientes iniciaram o tratamento fora do prazo legal, enquanto 53% dos casos sequer tiveram o tipo de tratamento identificado pelo sistema, o que evidencia falhas graves de registro e monitoramento.
Marlene Oliveira, presidente do Instituto Lado a Lado, chamou atenção para o elevado número de mortes por câncer de colo de útero. Em 2023, foram 7.084 óbitos. “Mesmo com políticas públicas estabelecidas, como as diretrizes de rastreamento, muitas mulheres ainda não têm acesso. Temos problemas estruturais, desde a falta de equipamentos e patologistas até as longas distâncias para centros de alta complexidade. Além disso, há vazios assistenciais que afetam diretamente o diagnóstico e o tratamento dessas pacientes”, destacou.

Já Luana Lima, Heah de Políticas Públicas e Advocacy da Abrale, enfatizou os desafios enfrentados nos diagnósticos de câncer hematológico, como linfomas e leucemias, que somam cerca de 30 mil novos casos estimados por ano Brasil. “O tempo para diagnóstico ultrapassa o prazo legal de 30 dias, chegando a variar de 26 a 136 dias dependendo do tipo de leucemia. Esse atraso pode custar a vida dos pacientes, especialmente em casos mais agressivos”, afirmou. Apesar disso, ela reconheceu avanços na redução do tempo para início do tratamento, mas apontou a concentração de especialistas como uma barreira significativa: “Mais de 60% dos hematologistas estão no Sudeste, enquanto o Norte tem apenas 3,3% desses profissionais. Em estados como Sergipe, a situação é crítica: precisávamos de nove hematologistas e hoje temos apenas três.”

Alisson Borges, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), abordou a importância do acesso à radioterapia, apontando que em estágios iniciais a taxa de cura do câncer de mama pode chegar a 99%, mas cai drasticamente para 31% em casos metastáticos. Ele destacou o uso do hipofracionamento, tecnologia que permite realizar o tratamento em cinco sessões, reduzindo custos e o impacto na vida dos pacientes. Contudo, lamentou a desigualdade na distribuição de equipamentos entre os sistemas público e privado, além da obsolescência de muitas máquinas.

Por fim, Alexandre Ben, Relações Institucionais da FEMAMA, representante da, enfatizou a necessidade de institucionalizar a política do câncer. Ele destacou que o Sistema Único de Saúde ainda enfrenta dificuldades regionais e falta de capacitação profissional. “Precisamos preparar o sistema para as mudanças no perfil da doença, como o aumento de câncer de mama em mulheres jovens, e garantir que o acesso e a qualidade do atendimento sejam equitativos em todas as regiões do país”, concluiu.

