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Estudos Sobre Exercício No Câncer E Novo Tipo De Diagnóstico Levam Prêmio

Estudos sobre exercício no câncer e novo tipo de diagnóstico levam prêmio

Uma pesquisa que avaliou o potencial do exercício físico para combater a caquexia, condição que acompanha e agrava o câncer, é a vencedora do 12º Prêmio Octavio Frias de Oliveira na categoria Pesquisa em Oncologia.

Na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia, o trabalho vencedor propôs um caminho para facilitar e complementar o rastreamento e acompanhamento de câncer colorretal, usando dosagens de moléculas de microRNA.

A premiação é uma iniciativa do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira), em parceria com o Grupo Folha.

A láurea, que leva o nome do então publisher da Folha, morto em 2007, tem como objetivo incentivar e premiar a produção de conhecimento nacional na prevenção e no combate ao câncer.

Segundo a professora Patrícia Chakur Brum, da Escola de Educação Física e Esporte da USP, líder do trabalho vencedor da Pesquisa em Oncologia, o exercício sabidamente tem potencial tanto para prevenir quanto para ser terapia complementar para vários tipos de câncer, embora não seja suficientemente estudado.

A caquexia, condição que provoca intensa perda muscular, agrava quadros de câncer. Brum e colegas mostraram, em roedores, que o exercício é capaz de aumentar a sobrevida e que uma das alavancas moleculares que explicam o efeito é a proteína COPS2.

Segundo a professora, por se tratar de um órgão endócrino (capaz de fabricar hormônios), a perda muscular pode ter efeitos em várias dimensões do organismo. ‘O exercício pode ser usado para melhorar o prognóstico, como terapia complementar e até como prevenção contra o câncer, mas há muitas questões em aberto sobre exatamente como isso acontece. Precisamos pavimentar essa estrada do conhecimento. Como dizia Octavio Frias de Oliveira, onde há vontade há um caminho. E o que não nos falta é vontade.’ O trabalho de Brum e colaboradores foi financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Classificada em segundo lugar na categoria, a pesquisa de João Machado Neto, da USP, e colaboradores conseguiu detalhar como se dá a proliferação de células em um tipo de leucemia, abrindo possibilidades de tratamento. Em terceiro, ficou a pesquisa comandada por Maria Luiza Oliva, da Unifesp, e colaboradores, sobre uma molécula de planta capaz de atrapalhar a sobrevivência de células tumorais.

Camila Meirelles de Souza Silva, que realizou a pesquisa na Universidade Federal do Ceará, e colaboradores são os vencedores na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia. A ideia do trabalho é criar as bases para a realização de um novo exame que acelere o diagnóstico de câncer colorretal.

‘Em muitos casos, os pacientes enfrentam um longo período de espera para exame diagnóstico por meio da colonoscopia. Esse tempo pode ser crucial no tratamento do câncer, pois, se a doença for detectada precocemente, as possibilidades de tratamento e prognóstico são bastante favoráveis’, conta Silva.

A pesquisa encontrou quatro tipos de microRNA, moléculas importantes para a sinalização e funcionamento das células, que apareciam em grandes quantidades em pacientes com câncer colorretal.

‘Estamos buscando parcerias para o desenvolvimento desse kit diagnóstico e também para a validação em outras populações. O próximo passo da pesquisa ainda depende de investimento’, diz a cientista.

O trabalho contou com investimento da Rebrats (Rede Brasileira de Avaliação de Tecnologias em Saúde).

Silva afirma que o prêmio representa o reconhecimento de uma história de vida de Ronaldo de Albuquerque Ribeiro, oncologista e professor da UFC, morto em 2015, que era originalmente seu orientador. A pesquisa teve participação de mais de 20 pessoas.

Na categoria, ficou em segundo lugar a pesquisa de Israel Tojal da Silva, do A.C.Camargo Cancer Center, e colaboradores. Eles correlacionaram a capacidade de reparo do DNA com imagens de tumores, abrindo possibilidade para uma escolha mais rápida de tratamentos.

Em terceiro, Debora Danilovic, da USP, e colaboradores fizeram um mapeamento dos genes que estão alterados no carcinoma das células de Hürtle, um tipo raro de câncer de tireoide.

Ao todo, 42 trabalhos foram examinados pela comissão julgadora, formada por representantes do próprio Icesp, da Faculdade de Medicina da USP, do Hospital das Clínicas da USP, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), da Academia Nacional de Medicina, da Academia Brasileira de Ciências, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Fundação Oncocentro de São Paulo e da Folha. Cada vencedor receberá R$ 20 mil, além de um certificado.

A cerimônia de premiação deste ano está programada para quinta-feira, dia 5 de agosto, às 17h e será transmitida no site do jornal e em seu canal de YouTube. O evento será comandado pela jornalista Cláudia Collucci, repórter especial do jornal.

‘Além de ser um reconhecimento público, o Prêmio Octavio Frias de Oliveira tem mudado o tom de interação dos pesquisadores com a sociedade -eles perceberam a importância de se comunicar, de maneira a prestar contas daquilo que fazem com dinheiro público’, diz Roger Chammas, presidente da comissão julgadora do prêmio e professor titular de Oncologia da USP.

Personalidade de Destaque é biólogo Hugo Armelin

O biólogo e pesquisador do Instituto Butantan Hugo Aguirre Armelin, 81, é a Personalidade de Destaque em Oncologia da 12ª edição do Prêmio Octavio Frias de Oliveira.

A escolha pelo nome de Armelin, explica Chammas, se deu pelas descobertas realizadas pelo biólogo desde a década de 1970, principalmente as que envolvem a molécula conhecida como fator de crescimento de fibroblastos (FGF, na sigla em inglês), produzida pelo próprio organismo.

A molécula estimula a proliferação das células e está ligada também à proliferação de células tumorais e de vasos -do surgimento do câncer, portanto. ‘Ao longo da carreira, ele foi decifrando os mecanismos de controle e ação desse fator na célula e de muitas outras moléculas relacionadas’, conta Chammas.

Os mecanismos que comandam o ciclo celular, cuja desorganização pode estar associada ao câncer, ainda eram muito obscuros na década de 1970, relata o cientista. ‘Ao mesmo tempo, parecia que um projeto dessa natureza, se bem-sucedido, poderia ter um impacto importante no estudo e na terapia do câncer.’

‘Ter sido escolhido para, neste ano, ganhar o Prêmio Octavio Frias de Oliveira foi, sem dúvida, uma grande honra e uma feliz surpresa. Prêmios dessa categoria são muito importantes para divulgação e destaque dos feitos da ciência brasileira entre o grande público’, diz Armelin.

Atualmente Armelin coordena o Centro de Toxinas, Resposta Imune e Sinalização Celular da Fapesp, com cerca de cem colaboradores. O objetivo do centro é isolar e identificar toxinas de venenos de animais peçonhentos que servirão de ferramentas moleculares para investigar o funcionamento das células.

Ele menciona o caso do cientista Sérgio Henrique Ferreira, que na década de 1960 descobriu, no veneno da jararaca, poderosa molécula, que, com um pouco mais de estudo, deu origem ao fármaco sintético captopril, usado no combate à hipertensão.

Armelin já ocupou cargos como a diretoria do Instituto de Química da USP, a pró-reitoria de pesquisa na mesma instituição e a presidência da sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular

Apesar das dificuldades da ciência brasileira, com perda de investimentos, ele afirma ser otimista. ‘O movimento que levou à criação do CNPq, da Capes, da Fapesp, das Academias Sociedades de Ciência e, mais recentemente, de todas as FAPs [Fundações de Amparo à Pesquisa] dos estados, além de a bons períodos do Ministério de Ciência e Tecnologia e do Ministério da Educação, atingiu o nível de um sistema nacional integrado, que tem condições de reagir.’

 

Fonte: Folha de S. Paulo

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