Skip to content

Mesa-redonda “Efetiva Já” discute crise oncológica em Sergipe e reforça urgência de tirar políticas públicas do papel

Por Thais Mendes Souza

A crise oncológica em Sergipe se tornou símbolo de um problema nacional: a dificuldade de acesso a medicamentos, exames e tratamentos para o câncer. A realidade vivida por pacientes sergipanos há décadas foi tema central da mesa-redonda “Efetiva Já – políticas públicas em oncologia fora do papel”, realizada em 17 de setembro de 2025, durante o Congresso Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), em São Paulo.

Com o objetivo de transformar intenção em ação, o debate reuniu representantes da sociedade civil, especialistas e membros do Movimento TJCC, que discutiram caminhos para tornar as políticas públicas de oncologia mais efetivas, principalmente a quem sofre com a falta de uma rede de atenção ao câncer bem estruturada – o paciente.

A mediação foi conduzida por Luana Lima, gerente de Políticas Públicas e Advocacy da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) e coordenadora do movimento.

Os relatos vindos de Sergipe nos preocupam profundamente. É uma realidade que reflete o que ainda acontece em muitas regiões do Brasil, e precisamos fortalecer o controle social e a articulação com os órgãos de controle”, afirmou Luana Lima.

Um retrato da crise

O estado enfrenta há décadas uma série de falhas estruturais que comprometem o cuidado integral. Faltam medicamentos, exames e profissionais especialistas em saúde, como hematologistas, o que levou ao fechamento do Ambulatório de Transplante de Medula Óssea do Hospital de Urgência Governador João Alves Filho (HUSE), principal referência oncológica do estado, no final de 2024.

Como consequência, pacientes recém-transplantados aguardaram mais de seis meses para consultas de retorno, colocando suas vidas em risco. Além disso, mais de 40 medicamentos essenciais estavam em falta no hospital, incluindo ciclofosfamida, vincristina, bleomicina e bortezomibe (Velcade).

Casos como o do jovem Lucas Gabriel de Oliveira Santos, de 23 anos, que morreu após falta de quimioterapia, foram lembrados pela paciente de Leucemia Mieloide Crônica e ativista Vanessa Melo: 

Agora dona Edilma [mãe do Lucas] luta para que outros não passem pela mesma dor. Ela não vai trazer o filho de volta, mas vai fazer com que o Estado não deixe faltar mais medicamentos. Essa é a nossa esperança!”

Além do impacto físico e emocional, a crise gerou consequências sistêmicas: profissionais sobrecarregados, pacientes desassistidos, aumento da mortalidade e maior custo econômico para o sistema de saúde.

Advocacy e articulação em curso

O caso sergipano foi apresentado por Fred Gomes (GACC-Sergipe), Dr. Robson Barros (advogado de Direitos Humanos) e Vanessa Melo, que expuseram a trajetória de advocacy iniciada com o apoio do Movimento TJCC a partir do 6º Fórum TJCC Norte e Nordeste, em 2024, ao lado da Federação das Instituições de Apoio aos Pacientes com Câncer do Estado de Sergipe (FIAPACE/ SE).

Quando nos unimos, o movimento se torna mais forte. Nós, da FIAPACE, fazemos a articulação local com a imprensa e gestores. E o TJCC e a Abrale dão suporte nacional, conectando o caso de Sergipe com outras realidades e frentes”, explicou Fred Gomes.

Desde novembro de 2024, o TJCC junta da Abrale e FIAPACE vem acompanhando o caso com a Secretaria de Estado da Saúde de Sergipe, Ministério da Saúde, além de senadores e deputados federais e órgãos de controle, cobrando respostas concretas e soluções sustentáveis. 

Apesar dos esforços em busca de respostas, ainda é preciso a adoção de medidas mais estruturantes com a apresentação de um plano de ação por parte do estado de Sergipe, que visa prevenir futuras falhas.

O Ministério Público Federal e Estadual estão cientes deste histórico da saúde de Sergipe, em especial da oncologia”, frisou Robson

Recomendações e caminhos propostos

Na segunda parte da mesa, os especialistas convidados — Luiz Santini, Wilson Follador, Marina Jancso e Fernando Maia — apresentaram análises técnicas e recomendações ao caso.

Marina Jancso, executiva em saúde e voluntária da Abrale, defendeu a criação de um plano de contingência estadual para evitar novas rupturas no abastecimento:

O paciente está morrendo. Se há um plano de contingência 30 a 60, é preciso entender porque ele não funcionou. Caso contrário, é urgente cobrar explicações e acionar outras instâncias.”

Luiz Santini, ex-diretor do INCA e pesquisador da Fiocruz, reforçou a importância de instrumentos formais de responsabilização:

O termo de ajustamento de conduta é um instrumento fundamental. Ele define ações, prazos e garante fiscalização dos gestores públicos.”

Wilson Follador, líder do GT de Acesso ao Tratamento do TJCC e presidente da ISPOR Brasil, trouxe evidências sobre o impacto dos atrasos:

Um atraso de quatro semanas no início do tratamento pode aumentar o risco de morte entre 6% e 39%, dependendo do tipo de câncer. Isso representa vidas perdidas e maior custo ao sistema de saúde.”

Já o médico sanitarista Fernando Maia destacou a necessidade de uma rede de atenção oncológica verdadeiramente integrada:

Se houvesse uma rede bem estruturada, seria possível realocar medicamentos e evitar rupturas. Precisamos aprender com esse exemplo para aprimorar nosso marco regulatório e garantir que o problema não se repita em outros estados.”

Esperança e força coletiva

Encerrando o debate, Luana Lima reforçou que o caso de Sergipe simboliza um chamado à ação nacional e que que o controle social em Sergipe tem atuado de forma exemplar:

A união das organizações locais é muito forte. Há diálogo com os gestores e também um movimento para envolver os órgãos de controle, que têm responsabilidade sobre o que está acontecendo. Sergipe é um retrato do que não pode mais ser ignorado”

Para Vanessa Melo, a solidariedade tem sido o fio que mantém a luta ativa ao mencionar o papel das organizações de pacientes:

Quando o SUS falha, as ONGs acolhem. Em Sergipe, o paciente sabe que não está sozinho. Conseguimos, por exemplo, ampliar o valor do TFD de R$ 24,75 para R$ 100 — uma conquista fruto da mobilização coletiva.”

A defesa da saúde do paciente contínua, segundo Robson Barros:

Nós da FIAPACE saímos daqui ricos em conhecimento e estratégias de mobilização frente à situação de Sergipe, e com muitos encaminhamentos. A saúde é um direito humano, e nós vamos em busca de um tratamento digno aos pacientes de Sergipe.”

 

 

Back To Top