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HIGHLIGHTS 7º Fórum Big Data Em Oncologia

HIGHLIGHTS 7º Fórum Big Data Em Oncologia

Veja os destaques do evento!

Por Natália Mancini e Tatiane Mota

No dia 7 de abril, aconteceu a sétima edição do Fórum Big Data em Oncologia, com o tema COVID-19 x CÂNCER. O evento, que contou com o apoio do Insper – Centro de Ciência de Dados e também da Varian, trouxe renomados especialistas na área de dados e saúde, que mostraram os efeitos da pandemia na atenção oncológica – e aqueles que ainda acontecerão nos próximos anos.

Na abertura, Catherine Moura, médica sanitarista e CEO da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), falou sobre a importância da união entre sociedade e órgãos de saúde no combate às consequências da COVID-19 no setor da Oncologia. Marcos Lisboa, presidente do Insper, relembrou que a partir dos anos 80 começaram a surgir técnicas de pesquisa e avaliação de dados na Economia e comentou que a ciência da computação revolucionou o cenário, possibilitando que números gigantescos de dados possam ser analisados.

COVID-19 x Câncer

No primeiro painel, intitulado Impacto da pandemia da Covid-19 no tratamento de pacientes diagnosticados com câncer”, Nina Melo, coordenadora de pesquisa da Abrale, apresentou dados inéditos sobre diagnóstico, tratamento e mortalidade dos 5 tipos mais incidentes de câncer em homens e mulheres no Brasil, entre os anos de 2019 (antes da pandemia) e 2020/2021.

Foi verificada uma redução geral de 26% em procedimentos diagnósticos para estas neoplasias em 2020; e 9% de queda em 2021. Há um represamento de confirmação de novos casos de câncer no Brasil nos últimos dois anos e diversos levantamentos de sociedades médicas confirmam este cenário, que pode representar um crescimento de mortalidade nos próximos anos.

Para o câncer de mama, por exemplo, entre 2019 e 2020, houve uma redução de 41% na realização de mamografias, o principal exame de rastreamento para a doença. Essa queda foi menor na comparação entre 2019 e 2021 (20%). Se a avaliação for feita entre as biopsias, a redução entre 19/20 foi de 29%; enquanto no período 19/21 foi de 9%. Para todos os procedimentos, de rastreamento e diagnóstico do câncer de mama, a redução geral ficou em 36% e 16%, respectivamente.

A situação se repete nas demais neoplasias. Em próstata, a redução de procedimentos com finalidade diagnóstica foi de 25% em 2020 e de 8% em 2021, na comparação com 2019. Para pulmão, queda de 23% e 8% nos dois períodos, respectivamente. Para os tumores de estômago, a redução chegou a 40% em 2020 e 25% em 2021, em relação a 2019. Já para câncer colorretal, 25% em 2020, com ligeira alta de 2% em 2021.

“Esses dados são alarmantes e causam preocupação em todos nós, não só ao paciente. Não está tudo bem e precisamos continuar levantando dados e levando-os para aqueles que podem tomar as decisões de melhorias”, finalizou Nina.

A pesquisa realizada pela Fiocruz, em parceria com o Observatório de Oncologia, com mais de mil pacientes e profissionais de saúde, foi apresentada por Dr. Luiz Antonio Santini, ex-diretor geral do INCA durante 10 anos e atualmente pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos – Fiocruz.

“Em 2020, 33% dos pacientes disseram ter percebido impactos em seu tratamento. Em 2021, 21% ainda entendiam haver alterações. No SUS, os impactos foram percebidos de maneira maior. Em 2020, esse número foi de 90%.  Em 2021, também ocorreu um número maior de remarcações de consultas (40%), quando comparado a 2020 (38%). Os cancelamentos aconteceram para 29% dos entrevistados em 2020, e em 2021 continuaram acontecendo para 10% dos pacientes”.

Cerca de 67% dos profissionais de saúde entrevistados relataram que aconteceram impactos no tratamento oncológico no SUS. 69% afirmam ter percebido esses impactos no sistema privado.

“O sistema de saúde está profundamente abalado. Será necessária uma estratégia específica para essa circunstância de pós-pandemia. E devemos pensar que esse pode não ser um evento único, precisamos estar alertas para novas situações que podem se repetir. Esses dados nos ajudam a entender como pensar no futuro da atenção oncológica em nosso país. Inclusive, já no planejamento de ações futuras nos próximos meses”, comentou o Dr. Santini.

De olho no câncer infantil

O câncer pediátrico também foi pauta na primeira mesa. Michele Gonçalves da Costa, sanitarista formada pela Faculdade de Saúde Pública da USP e analista de Dados em Saúde no Instituto Desiderata, apresentou o projeto de políticas públicas Unidos pela Cura, que objetiva promover o diagnóstico precoce do câncer infantojuvenil no Rio de Janeiro.

90% dos casos suspeitos da Atenção Primária foram encaminhados para hospitais especializados em até 3 dias. A média anterior ao projeto era de 60 dias. 84% dos postos de saúde do município do Rio de Janeiro já encaminharam pacientes por meio do projeto.

“Durante a pandemia, notamos uma variação de casos diagnosticados. A radioterapia também apresentou uma redução de 29% nessa população. Entendemos que esse tipo de situação promoverá uma redução nas chances de cura da criança, quando olhamos a longo prazo”, salienta Michele.

Dr. Neviçolino Pereira de Carvalho Filho, oncologista pediátrico e presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica, pontuou que o câncer é a principal causa de morte em crianças acima de 1 ano. Mas que é uma doença altamente curável, porém a desigualdade socioeconômica dificulta o acesso ao diagnóstico assertivo.

“Esse é um assunto muito importante para debate, mas também precisamos ver um contexto social, que impacta e muito no tratamento. 80% das crianças com câncer dependem do SUS. Faltam iniciativas do governo para essa população. Crianças brasileiras com câncer, que contraíram a COVID, apresentaram mais doença com sintomas moderados a graves, quando comparado a outros países (12%). O estadiamento é passo essencial para a escolha do tratamento. E nas crianças, não conseguimos realizar todos os exames necessários. O câncer pediátrico não tem tempo para esperar. Por isso, em alguns casos, o esquema de tratamento iniciado nem sempre poderia ser o melhor. E essa realidade já era ruim antes da pandemia. Agora, ficou um pouco pior”, apontou.

As diferenças sociais também foram trazidas pelo Dr. José Gomes Temporão, médico sanitarista, ex-Ministro da Saúde, membro da Academia Nacional de Medicina e pesquisador associado da Fiocruz.

“Os mais ricos não sentem dificuldade alguma. Mas a maior parte dos problemas é sentida pelos mais pobres, em especial os que usam o SUS. Eles sentem muita dificuldade no acesso ao diagnóstico e tratamento de qualidade. O financiamento da saúde, hoje, é inexistente no SUS. O problema não é a gestão, é preciso ter mais recursos. Os governantes precisam entender isso. Mas nosso Ministério da Saúde foi destruído por esse governo. Perdeu capacidade técnica e respeito. Precisará ser reconstruído”, falou.

http://https://youtu.be/kV7TKK5yijM

O que está por vir?

No segundo painel, a discussão permeou o tema “Desafios a médio e longo prazo: O que pode ser feito para minimizar os impactos da pandemia no futuro?”.

Diego Rodrigues Mendonça e Silva, doutorando em Epidemiologia pela Faculdade de Saúde Pública (USP) e data manager supervisor do Registro Hospitalar de Câncer do A.C.Camargo Cancer Center, comentou que no município de São Paulo, no primeiro semestre de 2020, houve um excesso de óbitos de 25%, o que equivale 9 mil óbitos a mais, quando comparado a 2019.

“94,4% das mortes estavam relacionadas à causa básica da COVID-19, mas a mortalidade por câncer, apesar de ter diminuído, essa redução não foi estatisticamente significativa. No A.C.Camargo Cancer Center, 411 pacientes de câncer tiveram COVID e, dentre eles, a taxa de letalidade foi de 12,4%, o que equivale a 51 óbitos, com média de 56,9 anos e 64,7% com o tratamento oncológico em andamento. Os dois grupos que tiveram a maior taxa de mortes foram os pacientes que apresentavam tumores hematológicos, com o dobro de chance de morrer, e os pacientes com câncer de pulmão, com quatro vezes mais chances de morrer pela infecção”.

Radioterapia precisa de atenção

A radioterapia foi um dos tratamentos que mais sofreu impactos durante a pandemia. De acordo com o Dr. Paulo Lázaro de Moraes, médico no Hospital Beneficência Portuguesa de SP e Grupo Oncoclínicas, e membro Titular da Sociedade Brasileira de Radioterapia, 6 a cada 10 serviços de radioterapia tiveram uma queda no número de pacientes.

“Dentre os fatores que fizeram com que isso ocorresse está a redução do diagnóstico de novos casos de cânceres, representando uma diminuição de 38%. Outro ponto foi os casos de pacientes positivos para a COVID-19 – 36,9% tiveram o tratamento por radioterapia interrompido, pois era tudo novo e não sabíamos como manejar estes casos”.

Gustavo Werutsky, médico oncologista e chair da Latin American Cooperative Oncology Group, aponta que o sistema de saúde brasileiro foi testado e pressionado durante a pandemia, expondo diversos problemas.

“Um hospital dedicado ao câncer na Amazônia teve suas instalações preenchidas com pacientes de COVID-19 e as pacientes com câncer de mama não puderam ser operadas. Algumas pacientes foram encaminhadas para o Rio de Janeiro para fazer a cirurgia e isso demonstra a nossa capacidade estrutural, que sempre viveu no limite, e foi testada durante a pandemia”, exemplifica.

Para lidar com esses pacientes cujo atendimento foi prejudicado por conta do coronavírus e, especialmente, com os casos represados e de diagnósticos tardios que já estão aparecendo, o Dr. Werutsky aponta que é preciso não somente retomar as consultas e terapias, mas também redesenhar o sistema de saúde. Para ele, para que o país consiga minimizar os impactos gerados pela pandemia, o ponto mais importante é o investimento na modernização do sistema.

“Essa é uma oportunidade para modernizar o sistema de saúde. Precisamos implementar novas tecnologias, por exemplo, navegação eletrônica, telemedicina, entrega de medicamentos em casa e, especialmente, investir em pesquisa clínica, para que exista vários estudos abertos nos quais os pacientes que estão no sistema também possam entrar. A implementação de novas tecnologias vai melhorar a qualidade, o desfecho dos pacientes e os custos”, diz.

Saúde privada também sentiu os impactos da pandemia

José Cechin, superintendente executivo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, mostrou que os impactos também atingiram a saúde privada, realizada por meio dos planos de saúde.

Em 2020, pesquisas mostraram uma queda de 19% nas internações por neoplasias, de 8% nas consultas com oncologistas e de 30% na realização de mamografias entre mulheres de 50 a 69 anos.

“Uma pesquisa realizada pela PNAD COVID, do IBGE, com entrevistas mensais, durante 7 meses, realizadas em 193 mil domicílios, apontou que 2,2 milhões dos entrevistados já tinham recebido o diagnóstico do câncer em 2020, e desses, 924 mil entrevistados tinham plano de saúde. Apenas 19% conseguiram fazer teste para COVID-19”, disse.

Dra. Maria Paula Curado, chefe do Grupo de Epidemiologia e Estatística em Câncer (GEECAN), que faz parte do Centro Internacional de Pesquisa (CIPE) do A.C.Camargo Cancer Center, finalizou as discussões pontuando que é preciso olhar o paciente de maneira individual.

“É um fato que a pandemia reduziu o acesso ao diagnóstico precoce. Como resultado podemos esperar um aumento na mortalidade? Pode ser que sim. Mas será que vai ser igual para todo mundo? Entendo que este ponto é heterogêneo. Não podemos tratar todo mundo igual. Cada paciente é diferente”.

Os debates completos podem ser vistos em: https://www.youtube.com/watch?v=ii2z5rP7fJw&t=1s

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