Conheça os vencedores da primeira edição! O Prêmio Merula Steagall é uma homenagem à fundadora…

Agrotóxicos e câncer: impactos na saúde e soluções em foco
Especialistas em saúde, sustentabilidade e meio ambiente falam sobre o impacto dos pesticidas na saúde e propõe soluções
No painel “Agrotóxicos e câncer: impactos na saúde e soluções em foco”, foram compartilhados estudos que demonstram a associação do uso de pesticidas com o desenvolvimento do câncer. Foi discutido o motivo pelo qual esse assunto é pouco abordado e ainda altamente contestado, e foram apresentadas propostas para substituir o uso desses químicos na produção de insumos.
O debate foi moderado por Isabelle Novelli, PhD em Nutrição e Saúde Pública, com foco em oncologia pela USP, e líder do GT de Controle de Agrotóxicos do TJCC. Contou com a participação do Dr. Davi Liu, Médico Oncologista na Escola Paulista de Medicina; Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e ex-representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário na CTNBio; Aline do Monte Gurgel, pesquisadora em Saúde Pública e coordenadora do GT de Agrotóxicos da Fiocruz; e Paula Johns, Diretora Executiva da ACT Promoção da Saúde.
O Dr. Davi Liu apresentou uma palestra na qual expôs diversos estudos indicando a quantidade de pesticidas utilizados nos alimentos e presentes no solo brasileiro. Ele afirmou que, ao analisar os agrotóxicos de forma individual, todos estão dentro dos limites recomendados. No entanto, quando é feita uma soma deles, os níveis ultrapassam o recomendado. Por exemplo, ao avaliar a quantidade de cada um dos pesticidas em um tomate, nenhum ultrapassa o limite recomendado. No entanto, quando é feita uma análise que considera todos os químicos presentes, o nível se torna preocupante.
“Quando comparamos o uso de cada pesticida no Brasil, temos um nível semelhante ao nível europeu. No entanto, não temos uma dose cumulativa proibitiva. Você pode chegar ao limite de cada um dos elementos. O nosso total de pesticidas é muito maior quando comparado com a União Europeia.”
Aline do Monte Gurgel trouxe outra informação que considerou preocupante. Ela expôs que, atualmente, a legislação brasileira proíbe o uso de agrotóxicos suspeitos de serem cancerígenos. No entanto, há um Projeto de Lei, o PL 1.459/2022, que está para ser votado e que, dependendo do resultado da votação, pode permitir a aprovação do uso de agrotóxicos relacionados a esse desfecho.
“Há uma controvérsia fabricada que tenta dissociar o uso dos agrotóxicos do desenvolvimento do câncer. Essa controvérsia fabricada acontece porque a classificação da carcinogenicidade da IARC é baseada em resultados de estudos experimentais, que se baseiam em estudos in vitro, pois não podemos separar a população e oferecer agrotóxicos para uma parte e para outra não. Portanto, como não podemos fazer esse tipo de estudo, a maioria dos agrotóxicos acaba sendo classificada nos grupos 2A ou 2B, que são considerados provavelmente carcinogênicos.”
Ela também afirmou que a indústria se beneficia dessa incerteza, partindo do princípio de que “se há uma dúvida, vamos oferecer esse elemento à população e ver o que acontece. Mas, na verdade, deveria ser o contrário: se não temos certeza, não deveríamos expor.”
O engenheiro agrônomo Leonardo indicou a agroeconomia como uma proposta para reduzir e/ou substituir o uso de agrotóxicos.
“É possível alimentar uma população maior, atendendo às necessidades de calorias globais, sem ampliar a área cultivada, mantendo os rendimentos já confirmados para a produção de base agroecológica, sem usar agrotóxicos.”
Ele também mencionou que além da questão diretamente relacionada à saúde, a agricultura extensiva realizada atualmente é responsável pela mudança climática que a população brasileira está enfrentando.
“Quando se ara o solo por muito tempo com o mesmo disco, ele se torna impermeável. A falta de penetração da água no solo faz com que essa água escorra, e esse escorrimento tende a ser mais intenso, causando situações como as inundações no Sul.”
Paula Johns disse que se considera naturalmente otimista, mas que tem sido difícil manter o otimismo no cenário atual, porque “estamos agravando um problema ao fingir que ele é uma solução. Não é uma agricultura sustentável que está sustentando o Brasil, e ela sequer consegue alimentar a nossa população.”
Ela reafirmou que o uso de agrotóxicos está diretamente ligado às mudanças climáticas e que essas questões estão relacionadas à desnutrição e à obesidade. Segundo ela, esses problemas se retroalimentam. Portanto, Paula considera que, ao encontrar uma solução para um desses problemas, a solução também se retroalimentará.
“Apesar de sermos grandes exportadores mundiais de alimentos, o Brasil precisa avançar no enfrentamento da fome e da insegurança alimentar e nutricional de sua própria população, garantindo o acesso a alimentos adequados e saudáveis. Um exemplo é a soja. A soja é um sucesso porque é fortemente subsidiada. Se tivéssemos os recursos que são investidos na soja destinados a políticas de agricultura familiar, poderíamos estar alimentando muitas pessoas.”
Fonte: Comunicação Movimento TJCC
