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Por Que é Preciso Refazer A Vacinação Pós-TMO?

Por que é preciso refazer a vacinação pós-TMO?

O sistema imunológico do paciente oncológico após o transplante fica enfraquecido, então todo cuidado é pouco

Por Natália Mancini

Refazer a vacinação do paciente oncológico após o transplante de medula óssea (TMO) é parte significativa do tratamento. Isso acontece porque durante o processo, grande parte das células de defesa acabam sendo destruídas e a imunidade fica debilitada. Porém, para não colocar o paciente em risco, é preciso seguir um calendário específico de vacinas.

Primeiramente, é importante entender que existem dois tipos de imunização,  a passiva e a ativa. A imunização passiva são os anticorpos produzidos fora do corpo  e utilizados para combater uma ameaça infecciosa de forma rápida. Depois que esses anticorpos neutralizam o agente causador daquela doença, eles vão embora, o corpo não guarda nenhuma memória deles. Ou seja, se a pessoa contrair novamente aquela doença, como ela não desenvolveu a própria imunidade, ela não vai ter anticorpos para fazer o combate.

“Então, por exemplo, você se expôs à hepatite B. Existe um montão de anticorpos anti-hepatite B que você pode tomar para não ficar doente. Isso pode acontecer também com a catapora e com a varicela. Mas, depois de um tempo, esses anticorpos vão embora”, conta o Dr. João Prats, infectologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Já na imunização ativa, o corpo e o sistema imunológico são induzidos a produzirem anticorpos e, preferencialmente, desenvolverem uma memória imunológica. Assim, a partir do momento que a pessoa já tem essa defesa construída, se ela tiver contato com a doença causada por aquele agente, ela vai estar protegida.

Esse tipo de imunização pode causar dois tipos de resposta imune: a inata e a adaptativa. A inata são métodos do próprio corpo, como a pele e mecanismos básicos do sistema imunológico. Enquanto que a adaptativa é quando o corpo é exposto a uma ameaça, produz anticorpo contra ela e o guarda na memória imunológica. Como acontece quando uma pessoa fica doente e após isso, cria anticorpos contra essa doença ou no caso das vacinas.

Como as vacinas funcionam?

A vacina simula a doença e tenta induzir o corpo a criar uma imunidade adaptativa. Dessa forma, quando a pessoa for exposta à doença real, ela já vai ter anticorpos para combater aquele agente infeccioso. Isso fará com que ela não fique doente ou, então, tenha sintomas mais amenos e combata mais rapidamente a doença.

Existem dois tipos de vacina.

“A vacina pode ser feita com um vírus vivo atenuado, que tem uma capacidade menor de se replicar, então não é capaz de causar a doença. Ou, então, o que chamamos de um vírus inativado, quando ele sofre uma mudança na sua composição, impossibilitando de se replicar”, o Dr. Prats explica.

Ele conta que o sistema imunológico pega uma amostra desse vírus ou do agente causador da doença e a leva para um “centro imunológico”. Em seguida, um grupo de células (dendríticas, os neutrófilos e macrófagos) presentes nesse local vai analisar esse material e o levar para os linfócitos T e B.

“Os linfócitos B conseguem recombinar o seu genoma de uma maneira muito interessante para tentar produzir o anticorpo certo. Esse anticorpo vai grudar nesse agente, por exemplo, e eliminá-lo”, o infectologista conta.

Como a imunidade adaptativa cria uma “memória”, os anticorpos e outros mecanismos de defesa  produzidos não vão embora. Assim, facilitando o combate daquela ameaça caso a pessoa seja exposta à ela.

Como a vacinação está relacionada com o transplante de medula?

Quando o paciente oncológico é submetido ao TMO, perde grande parte das células de memória  e, consequentemente, tem sua imunidade enfraquecida. Tanto a criada por meio das vacinas quanto a criada por infecções e doenças já contraídas.

Apesar disso acontecer no TMO autólogo e no alogênico, no caso do transplante alogênico, o sistema imunológico fica ainda mais enfraquecido devido aos imunossupressores.

“Nós brincamos que depois que faz o TMO, o paciente volta a ser criança. Tem que voltar todo o calendário de vacina novamente”, o Dr. Prats considera.

Ele explica que isso acontece porque a quimioterapia realizada antes do transplante acaba atingindo também as células de defesa, não só as células doentes. Além disso, os próprios cânceres hematológicos, frequentemente, têm envolvimento das células do sistema imunológico. Isso também pode prejudicar a memória imunológica.

“Muitas vezes, o paciente de mieloma múltiplo (MM), por exemplo, já vem com uma alteração imunológica importante. O próprio MM envolve células chamadas plasmócitos, responsáveis por produzir anticorpos, e elas já estão anormais antes do transplante. Então, você já tem problemas. Ao realizar a quimioterapia e outros tratamentos relacionados ao transplante ou a utilização de imunossupressores, há uma redução na população de linfócitos de memória. Isso faz com que o paciente tenha uma redução da sua imunidade adaptativa”, o especialista diz.

É preciso tomar alguma vacina antes do TMO?

Não é necessário tomar nenhuma vacina por conta do transplante em si. Entretanto, no momento do diagnóstico da doença, alguns pacientes podem receber a indicação de fazer a vacinação devido ao próprio câncer.

Como é o caso da vacina pneumocócica, que é essencial, principalmente, para os pacientes de MM. Entretanto, ela também pode ser administrada para alguns tipos de leucemia.

“Então, o paciente de mieloma, de leucemia, de linfoma de Hodgkin precisam tomar vacinas não por causa do transplante, mas sim pela doença que aumenta o risco de algumas infecções”, o Dr. fala.

vacina da gripe é outra que também deve ser dada sempre que possível, independe do estado imunológico. Já que ela é uma vacina com vírus inativado. Fora isso, o calendário vacinal padrão de adulto também precisa estar completo.

Vacinação pós-transplante de medula óssea

As vacinas com vírus inativados até poderiam ser feitas logo após  o TMO. Porém, o ideal é  começar a vacinação 6 mesesdepois do transplante para ter uma melhor resposta imunológica.

De acordo com o infectologista, “imediatamente depois, é o momento que o paciente está com a pior função imunológica. Foi perdida parte da memória, mas também há uma dificuldade para criar uma nova memória imunológica. Dessa forma, se a vacina for dada logo depois, a resposta não vai ser tão boa”.

Existem algumas exceções, como seria o caso de uma epidemia de gripe. Nessa situação, seria administrada a vacina da influenza a qualquer momento, porque mesmo que  resposta seja parcial, auxilia na proteção.

“A vacinação depende do risco de ficar doente pela vacina. Então, não administramos a vacina de vírus vivo antes de um certo período. Muitas delas só aplicamos depois de dois anos do transplante. Enquanto outras vacinas, começamos com 6 meses pós-TMO, porque, geralmente, os imunossupressores já diminuíram”, o Dr. Prats informa.

Ou imunossupressores são um ponto muito importante no caso do TMO alogênico devido à possibilidade de acontecer a doença do enxerto contra hospedeiro (DECH). Quando o paciente está tomando essa medicação, mesmo após o sexto mês, os médicos precisam decidir se a vacinação pode ser realizada. Para tal, é avaliado qual o momento de menor imunossupressão para que a resposta à vacina seja a melhor.

Calendário de vacinação

“As vacinas de vírus vivos podem causar a infecção no paciente imunossuprimido. Então, em geral, até dois anos depois do transplante, não indicamos vacina contra tríplice viral, sarampo, caxumba e rubéola, varicela, febre amarela”, o médico afirma.

De acordo com o calendário seguido pela BP, normalmente, as primeiras vacinas administradas 6 meses após o D0, 1ª visita, são a DTPa-VIP- Hib, Hepatite B, Pneumo 13, Influenza e HPV.

Um mês após a 1ª visita, além do reforço das mesmas vacinas, é feita a vacinação da Hepatite A, Meningo ACWY e Meningo B. Nesse momento, a vacina da Influenza só é dada caso paciente tenha tido um DECH de grande importância.

Dois meses após a 1ª visita, são repetidas as mesmas vacinas da primeira vez, com exceção da Influenza.

Oito meses após a 1ª vez, Hepatite B, Pneumo 23, Meningo ACWY, Meningo B e HPV.

1 ano depois da 1ª visita, DTPa-VIP- Hib, Hepatite A e Influenza.

24 meses após 1ª visita, Influenza, duas doses de SCR e Varicela, com um mês de intervalo entre cada dose, e febre amarela, somente se o paciente não estiver fazendo uso de imunossupressores ou apresentado recidiva da doença de base.

5 anos após a primeira dose, pode ser feito reforço adicional da Pneumo 23, Meningo ACWY, Meningo B e Influenza.

“Basicamente, vacinas anti pneumocócicas são super essenciais”, o Dr. João Prats finaliza.

 

Fonte: Revista Abrale 

 

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