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Câncer de mama: espera para fazer exames pode demorar até seis meses no RS, diz Imama

Conseguir um diagnóstico precoce de câncer de mama e, consequentemente, aumentar as chances de cura pode demorar até seis meses para mulheres que precisam fazer o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Rio Grande do Sul. De acordo com o Instituto da Mama do RS (Imama), a mamografia e a biópsia são os dois exames fundamentais para o diagnóstico do câncer de mama e deveriam ser feitos o mais rápido possível. Veja abaixo o tempo médio de espera para cada exame.

O tempo estipulado pelo Instituto é uma média feita entre os dados obtidos pelo Núcleo de Relacionamento com o Paciente Imama. Atualmente o núcleo tem 1.250 pacientes cadastradas e atendidas de todo o RS.

As pacientes aguardam um mês para a primeira consulta, depois disso, passam por exames e consultam com um especialista, um processo que pode levar de três a cinco meses.

A mamografia é o único exame que pode detectar o câncer em estágio inicial, com mais chance de cura, segundo o mastologista e chefe do setor de oncologia da Santa Casa, em Porto Alegre, Rafael Vargas. É indicado para todas as mulheres a partir dos 40 anos.

A ecografia, tomografia e biópsia são testes complementares que ajudam em casos de suspeita da doença, sendo a biópsia a última etapa antes da confirmação do diagnóstico, segundo o Imama.

Para o médico, se tratando de câncer, não existe um tempo de espera, o ideal é iniciar o tratamento o quanto antes.

‘Quanto mais tempo espera, pior pode ser o prognóstico. Não só em termos de taxas de cura, mas em termos de qualidade de vida para o paciente. A gente sempre tem que pensar no outro lado, na ansiedade que é uma paciente com suspeita de câncer esperando seis meses para fazer um exame. Acho que isso é inadmissível. O sofrimento que isso traz para a paciente’.

Rede estadual

A Secretaria Estadual da Saúde (SES) informou que o RS tem 203 mamógrafos em operação, dos 211 disponíveis, para os 497 municípios do estado. A rede de saúde tem 32 unidades hospitalares habilitadas pelo Ministério da Saúde, que compõem a Rede Estadual de Assistência em Oncologia. Destas, três estão classificadas como Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) e 29 como Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon).

Segundo Vargas, que também é conselheiro do Imama, durante a pandemia, houve uma queda nas solicitações de exames e também nos diagnósticos.

“Se teve uma diminuição muito grande nas solicitações de exames de mamografia porque as pessoas deixaram de procurar. Isso não quer dizer que o serviço deixou de ser oferecido”, afirma.

De acordo com o Observatório de Oncologia, em 2020, houve uma queda de 22% no número de procedimentos com finalidade diagnóstica no Brasil, em relação a 2019. No RS, houve uma queda acentuada na realização da mamografia de rastreamento, exame recomendado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Lei garante atendimento

No Brasil, desde 2012, a Lei nº 12.732 determina que, em caso de neoplasia maligna ou tumor maligno, o paciente tem direito ao tratamento gratuito em um prazo de 60 dias. Já em caso de sintomas consequentes da doença, o prazo cai para 30 dias.

‘Até onde eu saiba, existe a lei, mas não existe uma regulamentação de qual é o instrumento que tu vais utilizar para medir isso. Existe o painel de oncologia que tu acessa na internet, que seria o instrumento para avaliar isso’, explica o médico.

De acordo com Vargas, alguns hospitais utilizam o prazo de 60 dias como métrica para medir a qualidade do atendimento.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que “a ferramenta utilizada para o monitoramento do cumprimento da Lei n° 12.732/2012, conhecida como Lei dos 60 dias, é o Painel de Monitoramento de Tratamento Oncológico do Instituto Nacional do Câncer (INCA). O painel é acessado por gestores estaduais, municipais, estabelecimentos de saúde que ofertam o tratamento e órgãos de controle”.

Segundo a pasta, o atendimento aos pacientes nos estabelecimentos de saúde que prestam serviço ao SUS é regulado pelas Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde.

Corrida contra o tempo

Após meses de espera para realizar uma consulta com um mastologista, a vendedora Márcia Sauthier, de 59 anos, se mudou para Porto Alegre para tentar ser atendida.

Os primeiros exames, feitos ainda em 2021, detectaram nódulos nos seios dela, que também apresentou sintomas como dores e inchaço. Ela começou a busca pelo atendimento médico em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, onde morava com o marido.

Por conta da demora em conseguir fazer exames como a mamografia e punção, pelo SUS, Márcia decidiu realizar os procedimentos pela rede privada, ainda no ano passado.

“Eu lembro que, oito meses depois, já tinha feito os exames particulares, me ligaram dizendo que eu poderia agendar os meus exames. Todos os exames que eu fiz eu tive que pagar”, lembra.

No dia 23 de maio deste ano, ela foi a uma consulta em um posto de saúde da Capital, na qual foram solicitados novos exames para saber como o caso dela havia evoluído.

“A médica que me atendeu disse que a gente precisava correr contra o tempo, porque o nódulo aumentou muito”.

Márcia conta que, quando foi agendar o procedimento, só estaria disponível para daqui cinco meses. A voluntária do Imama Márcia Cristina Fernandes acompanhou a paciente durante a consulta.

“A médica da família deu certeza que ela está com câncer. Só que isso precisa ser registrado, precisa ser comprovado para que ela comece o tratamento”, conta.

A Prefeitura de Porto Alegre negou ao g1 a existência de filas para fazer mamografia no município. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a data mais antiga de solicitação do exame na rede de saúde é de 6 de junho.

A Prefeitura de Novo Hamburgo informou que o município não tem fila para exames de mamografia. Perguntada sobre a demora da paciente Márcia Sauthier para conseguir exames não retornou o contato da reportagem.

Nesse período de busca por atendimento, a paciente quis até desistir por conta da negligência.

“Essa mulher está há um ano sem saber o que ela tem. Que todo mundo diz em todos os lugares que ela foi na emergência, é que o caso é 95% de chance de ela ter câncer e se isso for confirmado, ela está com um atraso de um ano para começar o tratamento, sendo que a nossa lei hoje diz que o máximo é 60 dias”, explica a voluntária do Imama.

Os sintomas também acabam afetando a rotina. Márcia explica que, além de dor e inchaço, teve febre, tem o mamilo invertido e secreções na mama.

“Algumas coisas eu já não posso fazer mais, praticar esporte, tenho que evitar faxina pesada. E isso é como se tivesse me mutilando, porque eu estou sempre fazendo muitas coisas e esse problema fez com que eu parasse. Tu te sente inútil e impotente”, conta.

*A assistente Juliana Borgmann colaborou com supervisão de Lilian Lima.

Nota do Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde informa que, atualmente, a ferramenta utilizada para o monitoramento do cumprimento da Lei n° 12.732/2012, conhecida como Lei dos 60 dias, é o Painel de Monitoramento de Tratamento Oncológico do Instituto Nacional do Câncer (INCA). O painel é acessado por gestores estaduais, municipais, estabelecimentos de saúde que ofertam o tratamento e órgãos de controle.

O atendimento aos pacientes nos estabelecimentos de saúde que prestam serviço ao SUS é regulado pelas Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, tendo como objetivo garantir a adequada prestação de serviços e acesso do paciente conforme a necessidade e demanda de cada região.

 

Fonte: G1.Globo

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