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10º Congresso Todos Juntos Contra o Câncer debate sistemas de saúde e cenário futuro da Oncologia
Na plenária de abertura, especialistas falaram sobre prevenção, diagnóstico e acesso
A plenária de abertura do 10º Congresso Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC) reuniu oncologistas, médicos sanitaristas, economistas e representantes do legislativo brasileiro para discutir a respeito dos sistemas de saúde e se eles estão preparados para enfrentar o cenário futuro da Oncologia.
Dra. Catherine Moura, médica sanitarista e CEO da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (ABRALE), iniciou o painel falando sobre a importância de agir de maneira conjunta e ressaltou as atividades realizadas pelos Grupos de Trabalho do Movimento TJCC.
“O Movimento TJCC congrega muitas organizações, são mais de 300, e esse número está sempre crescendo e sendo atualizado, porque ele é vivo. São essas pessoas que realizam as ações no dia-a-dia e conseguem gerar impacto e engajamento. São pessoas muito especiais, que fazem parte da história e se dedicam com tanto empenho”.
Dra. Catherine também apresentou uma pesquisa inédita sobre quais são os principais pontos para que os sistemas de saúde do país estejam preparados para enfrentar o cenário do futuro da Oncologia.
A pesquisa foi dividida em sete eixos, sendo eles: Políticas Públicas; Assistência; Gestão e Financiamento; Formação e Qualificação Profissional em Oncologia; Pesquisa e Desenvolvimento Biotecnológico; Participação Social; e Ecossistema da Saúde. Em cada um desses eixos foram entrevistados profissionais para entender o que eles enxergam como prioritário para melhorar o cuidado oncológico.
Na parte de políticas públicas, o principal destaque foi o investimento em prevenção, com foco na estratégia de rastreamento. Para que isso seja possível, 20% dos entrevistados considera que é preciso haver uma melhoria da gestão entre os entes para redução das ineficiências do SUS; 17% enxerga o aumento expressivo do financiamento em Oncologia como uma solução, e 17% entende que qualificação da equipe de saúde deve ser foco.
“Chama muita a atenção a necessidade de capacitação. Precisamos investir na capacitação da nossa rede de profissionais de saúde, inclusive da equipe multidisciplinar”, Dra. Catherine pontuou.
Em relação à gestão e financiamento, foram apontadas três principais melhorias, sendo elas geração de dados para a tomada de decisão, melhoria no processo de alocação e aumento de recursos.
“Como atacar para melhorar esses desafios? Colaboração internacional aliada ao know how interno. É válido buscar experiências internacionais para trazer modelos e outras formas de fazer a gestão de saúde para a gente conseguir criar um contexto efetivo”, concluiu.
Em seguida, o Dr. André Medici, economista de saúde sênior do Banco Mundial, em Washington (EUA), trouxe um panorama internacional de como os sistemas de saúde estão se preparando em outros países.
“Por que as taxas de mortalidade continuam subindo entre 1990 e 2019? Elas são bem mais altas na Europa, Ásia Central e América do Norte. A tendência pode ser influenciada por vários fatores complexos e inter-relacionados, e pode variar de país para país e tipo de câncer, então não temos um motivo específico. Mas a primeira causa que é mais clara é o envelhecimento da população – o câncer é mais prevalente em pessoas mais velhas, então conforme a expectativa de vida aumenta, também há um aumento da mortalidade”, o Dr. Medici relatou.
Ele também apresentou o que se pode esperar para a próxima década no tocante ao combate ao câncer. Dentre elas estão: medicina de precisão; imunoterapia, biópsia líquida; inteligência artificial; terapias dirigidas; vacinas contra o câncer; tecnologias de detecção precoce etc.
“A disponibilidade e eficácia dessas estratégias pode variar de acordo com os investimentos dos países e dos sistemas de saúde. Por isso, é necessário saber quanto nós temos de recurso para investir. Temos que ter mais recursos e gastar melhor”, ele pontuou.
Quando o Dr. Medici foi questionado se é possível adaptar o cenário internacional para o Brasil, ele respondeu: “Sim e não, porque sim, obviamente o câncer depende dessa colaboração internacional – vemos que os países desenvolvidos estão se agrupando e isso traz muito progresso. Mas a gente também precisa ter uma política, vamos precisar vencer etapas prévias de planejamento e de estratégias da política”.
Dr. Nelson Teich, oncologista, ex-ministro da Saúde e OPM pela Harvard Business School, comentou sobre a importância dos dados para que o sistema de Saúde funcione.
“Tudo o que não acontece na prática, não adianta pra nada. A gestão tem que ter dado. E também precisa ser baseada em evidência. Porque só opinião não significa nada em um país. Os dados sim. E no Brasil eles devem ser regionalizados. Nosso país é desigual. Sem regionalizar, nada vai acontecer. O gestor precisa enxergar o país inteiro, por meio dos dados. Sem informação, estamos sempre perdidos. Não vemos diagnóstico, tratamento, inovação. E a nossa capacidade de dados não está acompanhando a evolução do sistema de saúde. O gestor precisa olhar para o todo. Sem isso, não vai conseguir liderar e coordenar o sistema. Informação é tudo”.
Dra. Ana Maria Malik, professora titular da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV, falou sobre o financiamento.
“Nunca vai haver dinheiro para tudo na Saúde. A jornada começa muito antes do diagnóstico. O câncer não é um só. O paciente tem que ser contemplado em todos os momentos. É preciso pensar em transição de cuidados. O que vai levar à sustentabilidade? Uma visão que contemple o paciente em todos os momentos”.
A plenária de abertura também contou com a representação do Ministério da Saúde, com a presença de Fernando Maia, médico sanitarista e coordenador-geral da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer.
“Estamos desenvolvendo um projeto para a eliminação do câncer de colo de útero, porque ele é prevenível, rastreável e curável, dependendo do estágio. Então, não tem cabimento ainda existir mulheres morrendo por conta dele. Se a nossa política de rastreio funcionasse, ela já seria suficiente, mas ela não funciona por questões de organização, logística e diversos outros desafios. Não adianta uma diretriz ser aprovada no Ministério da Saúde e, no momento da prática, não ser aplicável”, pontuou.
Dr. Luiz Antonio Santini, ex-diretor geral do INCA durante 10 anos e atualmente pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos – Fiocru, também falou sobre os problemas de implementação no SUS.
“Isso implica em informação, gestão, descentralização, acesso. Esse é o nosso próximo desafio. Estamos vivendo a consequência da pandemia. Temos tecnologia, dados, inovações, mas estão desorganizados. Mas temos ferramentas para mudar. Porém, ainda não temos estratégias”.
Dr. Pascoal Marracini, diretor geral no Instituto do Câncer Doutor Arnaldo Vieira de Carvalho e presidente da Associação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Combate ao Câncer, falou sobre acesso e navegação dos pacientes.
“Nos hospitais filantrópicos, queremos ajudar. Mas precisamos ser ouvidos. Nós sabemos que a regulação é extremamente desorganizada e a gente sabe que os pacientes têm dificuldade de acesso por conta dessa desorganização. Vemos pacientes demorando para entrar no sistema, quando conseguem passar por um profissional que não tem capacidade para entender o resultado do exame, demoram para chegar na atenção especializada”.
Fonte: Comunicação Movimento TJCC
