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‘Com formol ou sem formol?’ Produto cancerígeno ainda é popular em salões de São Paulo

Eu tenho o cabelo ondulado. Ele é mais volumoso e frisado que cabelos lisos, característica que me levou a gastar boas horas dos 15 aos 19 anos (entre 2013 e 2017) com alisante nos fios. As cabeleireiras juravam que não tinha formol -é um “alinhamento”, diziam-, mas meu olho ardia tanto que era necessário usar um pano molhado para acalmar.

O formol é proibido em alisantes no Brasil desde 2009 porque pode causar danos que vão dessa ardência nos olhos à falta de ar e câncer nas vias aéreas. Nos últimos anos, houve um movimento de valorização dos cabelos naturais -crespos, cacheados e ondulados. Apesar disso, o produto químico continua popular nos salões de São Paulo.

“Se [o cabelo] for muito afro e o fio grosso, indico [progressiva] com formol”, diz uma cabeleireira que atende em Vila Medeiros, na zona norte da capital paulista. Ela tem opções de progressiva com e sem formol.

Uma pesquisa da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), publicada em 2022, mostra que 35% dos fiscais da Vigilância Sanitária encontraram uso irregular de formol em alisantes.

Nos Jardins, na zona oeste, um estúdio também trabalha com os dois tipos de progressiva, de acordo com a preferência do cliente. Na mesma região, uma cabeleireira da Vila Leopoldina me advertiu que “a escova progressiva com formol alisa bem e dura mais. A outra alisa bem, porém a durabilidade é menor”.

“Eu estou com uma progressiva aqui muito boa, ela está sendo muito usada nos Jardins. Acho perfeita agora para o verão, que molha muito o cabelo”, diz outra profissional da região, me indicando a melhor progressiva disponível no salão. O valor, segundo ela, é superior a R$ 200.

Na Bela Vista, bairro da região central de São Paulo, quando entrei no salão e perguntei sobre a progressiva, me ofereceram uma sem formol. Perguntei se tinha com formol, entretanto, e a resposta foi de que sim, “com um pouquinho só”.

À Folha, a Anvisa afirma que o formol não consta na lista de ativos permitidos em produtos cosméticos para alisar ou ondular os cabelos.

“Formol nunca foi permitido com função alisante em cosméticos. A única previsão legal era ter na composição presença numa concentração de até 0,2% como conservante (função de conservante do produto), em produtos que não sejam de higiene bucal”, diz a agência em nota enviada por email.

O uso também é permitido como endurecedor de unhas, na concentração de até 5%.

“O formol é um conservante de tecidos que se utiliza inclusive para conservar cadáveres. Ele é extremamente tóxico”, diz o médico Reinaldo Tovo Filho, coordenador do Núcleo de Dermatologia do Hospital Sírio-Libanês.

Uma das principais consequências do uso dele no couro cabeludo é a dermatite de contato, uma alergia na pele do couro cabeludo, que pode provocar queimaduras e queda capilar, afirma a médica Larissa Montanheiro, dermatologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Além disso, se aspirado, pode levar a alergias, irritação das vias aéreas, desmaios e até morte dependendo do nível de intoxicação. “A Anvisa acabou proibindo o uso dessa substância devido à sua não segurança”, diz Montanheiro.

A FDA (agência que regulamenta alimentos e drogas nos EUA) planeja proibir os produtos alisantes que contenham ou emitam o formol. Há mais de uma década, porém, já havia declarado o químico como agente cancerígeno.

O paciente que alisa uma vez, depois de um tempo, vai se submeter ao alisante novamente para aquele novo fio que está crescendo. Com essa exposição crônica, alguns trabalhos mostram que há também um risco maior de câncer. Câncer de via aérea superior, como de laringe, e até mesmo leucemia, doença do sistema sanguíneo”, afirma a dermatologista.

A exposição ao vapor do formol atinge ainda mais o profissional que está aplicando do que o cliente, diz o médico Luiz Guilherme Camargo, presidente da SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica) de Alagoas.

“Alisar o cabelo não é uma coisa normal, você danifica o cabelo, o fio e pode queimar o couro cabeludo”, afirma Tovo Filho. “Nós devemos aceitar o cabelo que nós temos”.

Uma alternativa mais segura, diz Camargo, é usar produtos que contém ingredientes menos agressivos, como ácidos orgânicos ou aminoácidos. “Métodos mecânicos, como pranchas de cerâmica, escovas térmicas, chapinhas, podem ser usados com cuidado”, afirma.

Reportagem da Folha mostrou em março do ano passado, porém, que mulheres negras estão voltando a alisar os cabelos frente a críticas e pressão sobre a própria imagem, que influenciam até na procura por emprego.

No Brasil, a Vigilância Sanitária de cada cidade é responsável por fiscalizar os salões de beleza. O órgão afirma que, ao constatar a existência de produtos irregulares, sem procedência e sem registros, eles são retirados de circulação e as penalidades aplicadas aos estabelecimentos de beleza incluem interdição, multa e cancelamento da licença de funcionamento.

As denúncias para fiscalização de estabelecimentos que utilizam o ativo irregularmente em São Paulo podem ser realizadas no Portal 156.

 

Fonte: Folha de S. Paulo

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